Em Coração sem medo, Itamar Vieira Junior reafirma sua vocação de escritor que tensiona os limites entre ficção e realidade. Em 2025, o país registrou pouco mais de 81 mil desaparecimentos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O número representa um aumento de 4,9% em relação ao ano anterior e está associado à expansão de organizações criminosas. Embora os casos estejam frequentemente ligados às facções, uma breve pesquisa revela inúmeros relatos de pessoas que desapareceram após abordagens policiais. É justamente o que acontece com Cid, filho mais velho de Rita Preta, que some depois de ser abordado pela polícia na comunidade em que vive.
O desaparecimento ocorre após um desentendimento entre mãe e filho, o que leva Rita a acreditar que o adolescente sumiu apenas por teimosia. Com o passar dos dias, a operadora de caixa se vê obrigada a abandonar a comunidade onde construiu e reconstruiu sua vida após deixar o campo, para dedicar-se à busca pelo paradeiro do filho.
Diante desse acontecimento inesperado, Rita revisita o presente e mergulha no passado , seu e de seus antepassados, em busca de respostas que lhe permitam seguir em frente e recomeçar. Embora seja uma personagem ficcional, sua história se confunde com a de muitas mães brasileiras que vivem nas periferias e lutam para criar seus filhos longe da violência.
Assim como em Torto Arado e Salvar o Fogo, Itamar Vieira Junior repete o feito de mesclar momentos de tensão com trechos de contemplação, sem quebrar o ritmo da narrativa. A escolha de escrita leva o leitor a um estado de alternância entre incomodo e empatia. E nos leva a refletir sobre nossa própria apatia diante de histórias que não são nossas. Como diz a personagem: “Se aquela não fosse a história de vida de Rita Preta, era provável que não tivesse ouvido.”
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Ao longo de suas 332 páginas, o romance constrói o retrato das inúmeras cidades brasileiras que, mesmo erguidas sobre o trabalho de famílias pobres, e muitas vezes negras, tendem a ser apáticas às suas situações e vulnerabilidades.
Em ‘Coração sem medo’, Itamar Vieira Junior sintetiza a violência simbólica que atravessa o cotidiano de mulheres negras e apresenta o retrato de um Brasil que sonha com justiça social.Livro
“Coração sem medo”, de Itamar Vieira Junior. Todavia, 332 páginas, R$89,90.