Nas eleições de 2026, entre os 1.088 candidatos que concorrem a cargos pelo Paraná, apenas 18 declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) trabalhar no meio artístico ou possuem atuação na área comprovada por registros de fora do sistema do órgão (12 declararam atividade profissional em cultura, os outros seis possuem trajetória apurada pela reportagem do Plural, considerando artistas e produtores). Neste pequeno grupo, 11 pretendem uma vaga na Assembleia Legislativa paranaense, seis estão na disputa como candidatos a deputado federal, ninguém concorre ao Senado e só há uma candidatura ao posto de governador, a de uma mulher: Tayná Miessa, do partido Unidade Popular (UP). Os brancos são a maioria no geral, com 66,7%, enquanto pretos e pardos somam 27,8% e amarelos 5,6%.
A disputa por cargos na política não é novidade para oito integrantes do grupo, sendo que três exercem mandato atualmente (Mara Lima, deputada estadual pelo Republicanos; Giorgia Prates (Mandata Preta) pelo PT, vereadora de Curitiba; e Beto Vizzotto, prefeito de Paraíso do Norte pelo PT). Marco Brasil, ex-Progressista e agora no PSD, teve mandatos mas nunca foi efetivamente eleito nas urnas; ele assumiu como suplente a vaga de deputado federal por quatro meses em 2022, por cerca de nove meses em 2023 e, novamente, por cerca de 3 meses durante o final de 2024 e o início de 2025.
Olhando para os dados dos candidatos que se declararam como da classe artística ao TSE, as categorias com maior representação são produção de espetáculos e música (33,3% para cada), quando consideramos o grupo completo, a música passa na frente (44,4%). Entretanto, a reportagem não localizou propostas específicas para cultura na campanha de 75% dos oito candidatos ligados à música. Entre todos os 18 concorrentes, 10 têm como cidade-base Curitiba.
E o dinheiro?
No grupo há uma trinca dourada, os três com maiores patrimônios declarados são também os três com maior receita de campanha: Beto Vizzotto (PT), candidato a deputado estadual, tem mais de R$ 20,5 milhões em bens e, até agora, sua campanha conta com R$ 116 mil de partido via fundo eleitoral, mais R$ 150,5 mil de pessoas físicas e mais R$ 100 mil de recursos próprios (total R$ 366,5 mil); Marco Brasil (PSD), candidato a deputado federal, tem mais de R$ 6,2 milhões de patrimônio e sua campanha tem R$ 1 milhão do PSD via fundo eleitoral, mais R$ 500 mil de outros recursos partidários, mais R$ 47.280,46 de pessoas físicas e mais R$ 22 mil próprios (total R$ 1.569.280,46); e a Cantora Mara Lima (Republicanos), que concorre como deputada estadual, tem pouco mais de R$ 833 mil, com uma campanha que obteve R$ 705.406,55 do partido via fundo eleitoral, mais cerca de R$ 12 mil de outras candidaturas e R$ 181,20 de pessoa física (total R$ 717.737,75).
Depois deles, quatro dos concorrentes têm bens declarados entre R$ 250 mil e R$ 600 mil, dois de R$ 100 mil a R$ 249 mil, dois de até R$ 100 mil e o patrimônio dos demais não consta nos registros do TSE. Quatro candidatos têm receita de campanha entre R$ 25 mil e R$ 250 mil, oito de até R$ 25 mil, e três ainda não registraram receita.
Apenas dois candidatos usaram financiamento coletivo (vaquinhas online) para seguirem na disputa: Tayná Miessa, que conseguiu R$ 2.515, e Caê Traven (PT), que pretende ser eleito deputado estadual e arrecadou pouco mais de R$ 3 mil. Entre as quatro candidaturas com doações de pessoas físicas, o campeão é Beto Vizzotto, com R$ 150,5 mil, seguido por Marco Brasil, que recebeu R$ 47.280,46, em terceiro lugar está Tayná, com R$ 10,8 mil, e Traven conseguiu R$ 696,20.
O que defendem
Governador
Tayná Miessa (UP - Curitiba)
Tayná é produtora de espetáculos, defende a valorização da arte pública e a descentralização da cultura. Ela também considera que o Paraná tem baixo financiamento para a área, com editais inacessíveis e burocráticos.
Segundo seu plano de governo, a candidata realizará plenárias regulares, no mínimo mensalmente, dedicadas à área da cultura, promover um congresso de cultura popular e montar o secretariado da área por eleição entre atores culturais do estado.
Ela pretende descentralizar as ações, as apresentações e a formação artística; ; criar uma editora pública para publicação de autores locais e realizar feiras do livro nas regiões metropolitanas paranaenses; criar um fundo para financiamento da cultura indígena; fundar um programa de produtores culturais públicos, com editais para regiões vulneráveis e funcionários da Secretaria da Cultura dedicados para atender e orientar a participação de pontos culturais e coletivos fora dos eixos principais do Paraná.
A candidata também quer mapear e tombar como patrimônio cultural espaços de tradições de matriz africana; construir salas de cinema públicas em municípios conforme número de habitantes e clubes de cinema com oficina em escolas, e instituir um sistema estadual de bibliotecas públicas, implementar o Plano Estadual do Livro e da Leitura.
Deputados Federais
Leonna Moriale (PDT)
Entre suas principais bandeiras estão direitos das mulheres, população LGBT+, educação inclusiva e investimento em cultura.
Marco Brasil (PSD)
O locutor de rodeios e ex-secretário de estado Marco Brasil já tentou se eleger anteriormente. Em 2006 e 2010, concorreu à vaga de deputado estadual em São Paulo; em 2018 e 2022, entrou na disputa para deputado federal pelo Paraná. Sempre se declarou “Locutor e comentarista de rádio e televisão e radialista”, contudo, nas eleições de 2026, mudou para “Artista plástico e assemelhados”. Ele é autor do PL 1365/2023, para criar um Edital de Financiamento Cultural de Projetos de Rodeio no Brasil e a valorização da prática como patrimônio cultural imaterial brasileiro. O projeto segue em tramitação na Câmara dos Deputados. O candidato não divulgou propostas para a cultura fora do universo dos rodeios e da música sertaneja.
Cantora Juliana Valiati (PL)
Defende a “boa cultura” em vídeos de sua campanha, e diz que acredita na força da cultura para transformar vidas.
Não foi encontrada divulgação de propostas para a área da cultura dos candidatos Victor Augusto (Podemos), Anita de Biasi (Missão) e Carlinhos Banda Garrafão (PSB).
Deputados estaduais
Caê Traven (PT - Curitiba)
Caê Traven é natural de Foz do Iguaçu, atua como produtor cultural, DJ, ativista da cultura negra e fundador do coletivo Adubando o Pinhão. O candidato considera o reggae e a cultura sound system como arte e instrumento político. As duas principais plataformas de sua campanha eleitoral são justiça racial e cultura. Defende a descentralização de recursos, para dar vez à arte periférica, e desburocratização de editais de financiamento cultural; o fortalecimento da indústria criativa e a geração de oportunidades para artistas iniciantes e o combate à criminalização de linguagens e manifestações da cultura popular.
Giorgia Prates (PT - Curitiba)
Em seu mandato como vereadora em Curitiba, Giorgia atuou fortemente na defesa da arte, das demandas e dos grupos culturais. Entre os destaques estão sua dedicação à cultura negra e periférica, à memória afro-brasileira e ao hip-hop, além de emendas com recursos orçamentários para projetos de cultura popular. Ela também fez parte da Frente Parlamentar do Samba, Carnaval e Políticas Culturais.
Beto Vizzotto (PT - Paraíso do Norte)
O candidato é produtor do Paraíso do Rock. Ele defende a economia criativa, a descentralização do acesso à cultura com mais visibilidade para artistas do interior do Estado.
Flávia da Zombie Walk (PSDB - Curitiba)
Cultura é uma das principais bandeiras da campanha de Flávia, que há 18 anos atua no segmento. Defende fortemente o aumento da acessibilidade na área, tanto acesso físico e visual, quanto em Libras, em audiodescrição e com legendas, com mais inclusão das pessoas com deficiência na produção artística e cultural.
Giovanni Cosenza (PSDB - Curitiba)
Produtor, gestor cultural e artista. Giovanni é idealizador e produtor do Bloco Púrpura. Defende mais dinheiro para a cultura e mais controle e transparência sobre a utilização dos recursos, valorização da cultura como cadeia produtiva, revisão da lógica atual dos editais, reforma dos espaços culturais e circulação de produções paranaenses pelo interior. Também quer reconhecimento para festas populares tradicionais, além do carnaval, como a Congada da Lapa e o Fandango do Litoral.
Cantora Mara Lima (Republicanos - Curitiba)
A candidata é defensora da valorização da música gospel. Inclusive já apresentou projeto para tornar o gênero patrimônio cultural imaterial do Paraná, mas o texto ainda não foi aprovado.
Não foi encontrada divulgação de propostas para a área da cultura dos candidatos Cantor Kalebe (Podemos - Curitiba), Maestro Evaldo (PRD - Paranaguá), Eduardo Gomes (Missão - Cambé /Londrina. Músico), Poeta Angela (Rede - Curitiba) e Silvana Rosa (PSDB - Curitiba. Atriz e diretora de espetáculos.)
Foram excluídos deste levantamento Valdecí Olimpio “Baré" (Avante, deputado estadual), Claudinei Borges (Democrata - deputado federal) e Robson Moreira (Democrata - deputado federal) porque, apesar de indicarem ao TSE ocupação de “escultor e pintor", eles têm vínculos profissionais na construção civil. Mirelle Romanchuk (PSDB - deputada estadual) também não entrou na avaliação porque não foi encontrada comprovação de atuação artística como fotógrafa.
Fonte: dados oficiais do TSE em 14/09/2026 e apuração do Plural em sites, redes sociais, materiais de campanha e entrevistas dos candidatos.