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É “urgente” reformar os teatros e falta autonomia em muitos espaços, alerta Festival de Curitiba

Apesar de movimentar R$ 50 milhões, o evento recebe patrocínios em cima da hora, encontra locais depauperados ou sem liberdade para programação e raros lugares adequados fora do centro

É “urgente” reformar os teatros e falta autonomia em muitos espaços, alerta Festival de Curitiba
Diretores do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz e Fabíula Passini. (Foto de: Tami Taketani/Plural.)
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A 33ª edição do Festival de Curitiba foi um sucesso, não há como dizer o contrário. Os organizadores conseguiram trazer espetáculos internacionais, argentinos e uruguaios, e das cinco Regiões do Brasil para a Mostra Lucia Camargo, com destaque para três curitibanos entre os 28 em cartaz. No evento inteiro, foram cerca de 350 atrações em mais de 70 endereços de Curitiba e Região Metropolitana. Para completar a conta bem-sucedida, o grupo dos aplausos contou com mais de 200 mil pessoas ao longo dos 14 dias de programação. 

A impressionante quantidade de público não é inédita, o número foi alcançado em 2023 e desde então se repete. Em entrevista coletiva para a imprensa, os diretores do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz e Fabíula Passini, falaram da edição que aconteceu de 24 de março a 6 de abril de 2025 e também sobre o que é preciso para o evento apresentar uma performance ainda melhor. 

Maior não, porém mais forte

Segundo Passini, ao longo dos dias, várias pessoas de fora da cidade e mesmo de Curitiba comentaram que o Festival cresceu, entretanto, isso não é verdade. “Não está maior. Estamos exatamente do mesmo tamanho, mas acho que a gente está muito mais forte", diz ela, que aponta o sentimento de orgulho dos curitibanos e da classe artística pelo evento como responsável pela impressão de tamanho ampliado: “Quanto mais pessoas falam bem, quanto mais pessoas apoiam, o evento fica mais forte e parece que ele é maior. Esta edição foi muito boa nesse sentido."

50 milhões de reais

O Festival de Curitiba também é um sucesso fora dos palcos. Na economia criativa, a Rodada de Conexões teve 70 participantes entre companhias e artistas, além de 30 programadores e curadores. O resultado foi a geração de 380 oportunidades de negócios, ou seja: algo entre R$14 milhões e R$18 milhões, conforme análise da empresa de Inteligência e Pesquisa de Mercado Realize Hub. 

Não é pouco, mas o balanço ainda tem cifras maiores. O evento movimentou mais R$ 50 milhões no setores hoteleiro, de gastronomia e de entretenimento, segundo estimativa do Sindicato das Empresas Promotoras de Eventos (Sindiprom-PR), da Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Similares (Feturismo) e da Associação Brasileira dos Bares e Casas Noturnas (Abrabar).

Falta antecedência nos patrocínios

Sempre dá para melhorar. A expectativa a cada nova edição é superar a anterior e, na avaliação dos organizadores, a meta foi cumprida. Entretanto, para o Festival de Curitiba ficar ainda melhor e até crescer em 2026, alguns pontos são fundamentais. Sobre o que é preciso aprimorar, a resposta começou pela necessidade de compromissos de patrocínios antecipados, de longo prazo, algo que soa como um mantra na voz de Knopfholz. "Se você fizer essa pergunta ao Festival de Edimburgo [na Escócia], eles vão falar 'em 2029, temos que fazer isto', enquanto estamos falando de 2026, que já está aqui. Então, se a gente pudesse ter uma antecedência maior no fechamento de patrocínios e mais tempo para desenhar o evento, poderíamos ter vários ganhos”, diz ele. 

O diretor esclarece que reconhecer a importância dessa antecipação não é um aprendizado deste ano, na verdade, é um apelo: “Isso faz com que a gente possa errar menos. Serve como exemplo o reconhecimento de uma falha nossa, fechamos “Encantado” da Lia Rodrigues, que era maravilhoso, depois que a gente tinha soltado a programação, porque não há essa antecedência para poder conversar com as companhias.” Conforme ele revelou, foi preciso adiar a confirmação pela incerteza sobre o dinheiro até muito perto do início do evento e, como resultado, menos pessoas foram impactadas pelo espetáculo de dança.  

Teatros precisam de reformas urgentes

A melhoria das salas de teatro, no Centro e nos bairros, foi apontada como outro fator decisivo para o aprimoramento do Festival de Curitiba. O local com maior necessidade de reformas está na mesma região do Centro Cultural Teatro Guaíra e tem porte intermediário entre a capacidade do Guairão e do Guairinha, é o Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Sobre ele, Passini enfatizou: “É urgente! (...) É uma sala muito importante pela capacidade, formato, localização e tamanho do palco; é um teatro que todo mundo adora, mas precisa passar urgentemente por uma reforma.” Outro espaço da universidade, o Teatro Experimental da UFPR - Teuni (no prédio histórico da Praça Santos Andrade) já está interditado por problemas estruturais. “É uma sala incrível e foi fechada há anos”, lembra a diretora.

Para Knopfholz, outros locais poderiam entrar no evento e ajudar na descentralização da programação, entretanto o festival encontra vários impedimentos. “O Teatro do Colégio Estadual, com mil lugares, a gente não consegue usar. Existem algumas salas, principalmente em escolas mais antigas, onde é difícil programar porque de certa forma há uma intenção de conhecer o texto antes, e não podemos nos sujeitar a isso, programamos o que a gente quiser. Há salas, mas não salas disponíveis e nem em totais condições para a gente poder espalhar um pouco mais a programação", diz ele. 

Faltam espaços adequados para descentralizar a programação

O desejo de "sair mais do centro e estar mais em outros lugares" é forte, afirma a dupla. Porém, a maior dificuldade citada pelo diretor é a questão estrutural. “Estamos acostumados a fazer espetáculos numa paróquia ou associação de moradores; todo lugar com 80 metros quadrados livre está apto a receber alguma atividade nossa. Mas, é claro que, no Centro, as estruturas físicas são mais confortáveis pra gente fazer isso", explica o diretor e complementa: “No Centro, há muito mais equipamentos, apesar do fato de estarem depauperados e deteriorados.”

Na tentativa de alcançar um raio mais longe do que a área central da cidade, os dois chegam a visitar cerca de 80 locais durante a pré-produção do Festival. “Encontrar onde fazer com qualidade de apresentação é uma dificuldade que transcende o nosso controle; às vezes, é preciso altura, área, outras vezes a gente precisa ter acesso para depositar o cenário, uma liberação de alvará, acessibilidade", conta Knopfholz.

Patrocínio e apoio da Prefeitura de Curitiba

Neste ano – além da Petrobras, Caixa Econômica Federal e Sanepar – a prefeitura retornou para o grupo dos principais patrocinadores do Festival de Curitiba, após ignorar o evento por oito anos. A volta foi em cima da hora, contudo a promessa é de que as conversas com os organizadores sobre a próxima edição comecem no mês de junho. Ainda segundo Passini, isso pode ajudar a espalhar a programação pela cidade. “Com o apoio, a gente vai conseguir chegar em muitos lugares através dos equipamentos municipais. Será uma forma de se beneficiar da prefeitura não só com patrocínio, mas com apoio mesmo", diz ela.  

Festival de Curitiba 2025

A 33ª edição do evento foi realizada entre os dias 24 de março e 6 de abril, com programação dividida entre mostras e eventos paralelos. A Mostra Lúcia Camargo, a principal, apresentou 28 espetáculos selecionados pelos curadores Giovana Soar, Danielle Sampaio e Patrick Pessoa; no Fringe, foram cerca de 280 atrações; a 2ª Mostra Surda de Teatro teve 1.500 espectadores divididos em 12 sessões, uma oficina de dança e um sarau de poesia; o Gastronomix recebeu 7 mil visitantes ao longo de três dias com 16 horas de música e consumo de 2,25 toneladas de comida; o Guritiba vendeu 2 mil ingressos para o público em geral e levou 2 mil crianças da rede pública de ensino ao teatro; já o Mish Mash apresentou três sessões para cerca de 3 mil pessoas. 

Outras informações no site oficial do evento.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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