O Início
Valêncio Xavier deve estar soprando velinhas no Cosmos durante todo este ano de 2025. O motivo? O aniversário de cinquenta anos da Cinemateca criada por ele. Funcionário da Fundação Cultural de Curitiba desde a sua fundação, em 1973, Valêncio desenvolvia as atividades do audiovisual da instituição, naqueles primeiros anos, no Teatro do Paiol, inaugurado em dezembro de 1971 com show de Vinicius de Morais, Toquinho, Marília Medalha e Trio Mocotó. As exibições de filmes de arte, palestras bem como cursos de iniciação ao Cinema eram realizados naquele espaço cênico, considerado na época um dos mais charmosos de Curitiba.
Valêncio convidou o jovem crítico de cinema Francisco Alves dos Santos para ajudá-lo nessa empreitada. Formado em Filosofia, seus textos, uma abordagem estética com um olhar humanístico e social, chamavam a atenção. Francisco viajava para os principais festivais nacionais, (Gramado, Brasília e Salvador) fazendo cobertura para a imprensa local ao mesmo tempo em que trazia as novidades do cinema para exibição na Cinemateca. Muitas vezes as estreias aconteciam com a presença de diretores para debates com o público. ”Valêncio estruturou a Cinemateca com os pilares básicos. Primeiro: pesquisa, prospecção, recuperação e formação de acervo de filmes. Segundo: formação cinematográfica. Terceiro: difusão cinematográfica”, afirma Francisco que é autor dos livros Cinema Brasileiro, 1975, Cinema no Paraná- Nova geração, Cinema no Paraná –Anos 90 e Dicionário de Cinema no Paraná.
Bastou a Cinemateca ser inaugurada no dia da graça de 23 de abril de 1975, para que os cinemaníacos, universitários, professores e intelectuais curitibanos se apossassem daquele território e o transformassem na sua própria casa. Quem acolheu de braços abertos o mais novo point da Cidade foi o Museu Guido Viaro, pertencente à FCC, na Rua São Francisco, 319, na ocasião dirigido por Jair Mendes (1938-2017), um dos mais importantes pintores paranaenses. Constantino Viaro, filho do pintor, que cedeu o acervo do pai em Comodato para a Fundação Cultural, junto com Xavier foi um entusiasta da iniciativa. A Cinemateca do Museu Guido Viaro foi inspirada nas outras duas já existentes no Brasil. A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e a Cinemateca do MAN, no Rio de Janeiro.

Um anexo do Museu foi adaptado para sediar a Cinemateca com um auditório para exibição de filmes, palestras e seminários. Comportava ainda, salas de pesquisa e administração, e sala climatizada para o acervo. A câmara de 16 mm e a moviola eram o xodó dos alunos dos cursos práticos. Era ali que começavam a nascer seus primeiros filmes. Havia ainda um equipamento em Super Oito, utilizado num Projeto de Cinema desenvolvido nas escolas municipais de Curitiba, que permitia a realização de filmes de animação pelos alunos.
Hoje, com a chegada do cinema digital, esses equipamentos analógicos, dentre outros, pertencem ao acervo memorial da Cinemateca. Duas décadas mais tarde, com o nome de Cinemateca de Curitiba, a instituição ganhou sua sede própria na Rua Carlos Cavalcanti, 1.174, onde funciona até hoje. A sede é o resultado da junção de dois imóveis históricos no Alto São Francisco e uma nova construção que foi agregada ao imóvel para abrigar a sala de exibição com 200 lugares, mais a sala de preservação de filmes e um espaço administrativo. A Cinemateca, em sua idade adulta prosseguiu com as metas a que tinha se proposto desde a sua criação. Em 2023, a jornalista Mirian Karam lançou o documentário Geração Cinemateca. Com produção de Teia Werner, roteiro em parceria com Kamil Gemael, ela entrevista pessoas que fizeram parte do nascimento daquele espaço cultural. Frequentadora desde o início, Karam além do jornalismo impresso trabalhou com audiovisual, principalmente na TV.
A Pesquisa
Valêncio Xavier Niculitcheff (São Paulo 1933- Curitiba 2008) foi pesquisador, escritor, cineasta, foi também pioneiro da televisão no Paraná. Ao criar a Cinemateca, ligada à FCC-Prefeitura, deixou seu nome na história do Cinema no Estado. O setor de pesquisa, criado e incentivado por ele, serve até hoje como referência para interessados no tema dos pioneiros.
Pátria Redimida, Um filme revolucionário (1930) de João Batista Groff, tem uma importância histórica, sem precedentes ao registrar a eclosão do movimento político-militar daquele ano, no Rio Grande do Sul. A insurreição marcou o fim da República Velha no Brasil, e o início da Era Vargas (1930-1945). Esse filme, com o passar do tempo, não tinha mais condições técnicas de exibição. “Com apoio da família Groff, que detém os seus direitos” diz Francisco Alves dos Santos, “Valêncio Xavier conseguiu viabilizar a restauração deste material, o que permitiu a tiragem de nova cópia. O resgate proporcionou às novas gerações o acesso a esse marco do documentário paranaense”, continua Francisco. “O mesmo ele fez com outros filmes de pioneiros do cinema paranaense como Panorama de Curitiba (1909) de Aníbal Requião e Hollywood Studios (1927) de Artur Roger (1929)”.

Foi a partir desses resgates fílmicos que se deu início, sob a coordenação de Xavier, naqueles primeiros anos, a várias pesquisas e publicações, patrocinadas pela própria Cinemateca sobre as origens do cinema no Paraná. O filme de Groff teve pesquisa e texto de Celina Alvetti e Clara Satiko. Solange Stecz e Elizabeth Karan se debruçaram sobre a obra de Aníbal Requião. Essas monografias foram premiadas num concurso nacional promovido pelo MEC/Funarte/Embrafilme e publicadas no volume Cinema Brasileiro Oito Estudos, de 1980. Solange também é autora de Referências sobre filmagens e exibições cinematográficas, em Curitiba, no período de 1892 a 1907, publicada no boletim da Casa Romário Martins/FCC, em 1976.
Stecz e Thelma Penteado Lopes. São autoras de Jacarezinho, Cidade Rainha do Norte do Paraná, um testemunho sobre o cinema de cavação no norte pioneiro, a propósito do cinejornal homônimo. O filme, que deu origem ao texto, foi recuperado em 35 mm e faz parte do acervo da Cinemateca. O termo Cinema de Cavação surgiu entre as décadas de 1910 e 1920, no Brasil, e se referia ao registro de eventos sociais como festas, comemorações e o cotidiano das cidades. O texto de Solange e Thelma foi publicado no Caderno de Pesquisa do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro com a Fundação do Cinema Brasileiro e Minc (1988) Solange, membro ativo do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro e atualmente é professora no Curso de Cinema da Unespar.
Francisco relata que “na década de setenta, em plena ditadura militar, sob a direção de Valêncio, a Cinemateca era o único espaço alternativo para debate e a liberdade de expressão, ao disponibilizar para o público uma programação que incluía filmes nacionais voltados para uma radiografia da realidade brasileira, sua identidade, suas disparidades socioeconômicas”. E continua: “Graças a convênios estabelecidos com as outras duas cinematecas brasileiras e instituições culturais estrangeiras como Aliança Francesa, Instituto Goethe e algumas embaixadas se pôde viabilizar naquele início, uma programação de alto valor cultural. Os diretores americanos Edson, Griffith Porter e Chaplin, os franceses Lumière e Meliés, bem como a vanguarda russa e francesa, a experiência nórdica, o expressionismo alemão, o neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague eram exibidos e discutidos por alunos e estudiosos. Os curitibanos conheceram ainda, naquela década, a filmografia do novo cinema alemão, um movimento avançado com produções de Werner Herzog, Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder”. Valêncio deixou a Cinemateca em 1982, Francisco Alves continuou o seu legado.
Em homenagem a Xavier, o Cine Passeio, inaugurado em 2019, instalou um estúdio com o seu nome dotado de modernos equipamentos, com projetor móvel, tela retrátil e som para exibições. No local se realizam aulas, palestras e exibições de filmes. O espaço multiuso conta com 110 lugares.
Geração Cinemateca
Berenice Mendes, diretora de A Classe Roceira, importante documento sobre o nascimento do MST do Paraná, Davi Carneiro e Saint Hilaire, dentre outros, foi uma das primeiras candidatas aos cursos oferecidos no espaço que incentivou inúmeras pessoas na arte do cinema. “Pensar na Cinemateca de Curitiba é recordar o encontro com a arte. Foi ali que o mundo, para mim, ganhou novas perspectivas e horizontes. Entender que era possível criar, narrar, refletir e comunicar com imagens e sons, em nossa própria língua, a nossa própria história, foi profundamente transformador. Olhando em retrospecto, creio que a Cinemateca foi um portal para outra dimensão existencial. Uma linha do tempo que contemplava a liberdade acima de tudo, mas que também gerou em minha consciência a percepção do outro. Passei a ver a vida pela objetiva das câmeras, cuidando para que o foco estivesse correto e o enquadramento agradável, para que a síntese fosse obtida e para que o conjunto, montado, fosse bom e belo. O cinema me formou e me conformou. A juventude vital daquele grupo, os desafios, as conquistas, as lutas, derrotas, disputas e vitórias, tudo isso ficou pra trás, faz parte de um passado pioneiro. Porém, a doce lembrança de pertencimento e o sempre raro saber escrever com luz e sombras - os mais generosos tesouros que a Cinemateca nos entregou -, são inesquecíveis. Sou eterna e infinitamente grata”.

Berenice foi contemporânea, nas décadas de 1970, 1980 de outros jovens que deixaram suas marcas na cinematografia contemporânea do Paraná e do país. Peter Lorenzo, atualmente vive em Florianópolis, onde criou um curso de cinema que é referencial no sul do país. Peninha (José Roberto Braga Portella) foi técnico de som da maioria dos filmes feitos na época, além dos montadores Pedro Merege e Homero Carvalho, que mais tarde mudou para o Rio de Janeiro e criou a área de filmes da Fiocruz. Fernando Severo, nome em destaque daquele período, é hoje professor de Cinema da Faculdade de Artes do Paraná. Com O Mundo Perdido de Kozák, Severo foi premiado como o melhor filme no XXI Festival de Cinema de Brasília. Foi vencedor ainda de vários festivais nacionais.
Há quem diga que embora o endereço da Rua São Francisco não fosse o mais apropriado para as suas funções, foi lá que os primeiros frequentadores e usuários deixaram os seus corações e mentes. Willy Schuman, hoje um realizador reconhecido, teve sua entrada na sétima arte dentro daquelas paredes. ”A base cultural da minha geração, nos anos 1980, foram as mostras da Nouvelle Vague e do Cinema Novo. Lá fomos apresentados a Kurosawa, Godard e outros gênios, que nos deram as pistas para seguir adiante. Altenir Silva, Paulo Friebe, Elói Pires Ferreira, Nivaldo Lopes e Geraldo Pioli fazem parte da segunda turma (1980/1990) de futuros cineastas daquela década, e não pararam de produzir até os dias de hoje.
Esse grupo foi batizado como “A Turma do Balão Mágico” em referência a um coletivo musical infantil que ficou conhecido na televisão de 1983 a 1986. A matéria de página inteira, escrita pela jornalista Rosirene Gemael (1950-2011), editora de Cultura do Jornal paranaense Correio de Notícias, ao relatar as iniciativas cinematográficas da trupe, exibiu a manchete da matéria com letras em caixa alta: Com Vocês, a Turma do Balão Mágico. Essa chamada, num dos mais importantes diários da época, chamou a atenção dos curitibanos. Segundo Schuman, o coletivo não tinha a intenção de se comparar aos músicos mirins da TV. “Com o balão, o que nós realmente queríamos era alçar voo. A maioria dos filmes que realizamos foi em parceria uns com os outros. Quando precisávamos de fotógrafo, produtor, montador, roteirista recorríamos aos próprios colegas” conclui. Dessa forma, o clube reforçava os laços profissionais e de amizade. Willy tem um portfólio de filmes realizado sozinho ou em parceria com seu irmão Werner que mora em Londres há 20 anos. Só para dar um exemplo: o filme Sol na Neblina, de 2009, produzido e dirigido pelos irmãos, foi selecionado para o programa Cine in Construcción, no Festival de Cinema de San Sebástian, na Espanha. Os Schuman, segundo Willy, “estão com alguns longas terminados, só faltando a finalização”.
Geraldo Pioli, formado em filosofia, diretor e roteirista, ficou conhecido pela parceria, junto com Altenir Silva, do documentário Belarmino e Gabriela de 2007, sobre os músicos paranaense do mesmo nome, que fizeram sucesso no Brasil de 1940 a 1970. A dupla musical ficou famosa com a música As Mocinhas da Cidade gravada em 1959. Geraldo dirigiu ainda A Aldeia e o documentário TV Educativa do Paraná, a propósito do centenário do nascimento do Rádio no Brasil. Funcionário concursado da Fundação Cultural, desde 1986, passou por várias funções na Cinemateca tanto na sede da Rua São Francisco como no prédio atual. Apaixonado por cinema, Pioli relata que nos anos 1960, em Ribeirão Claro, sua cidade natal, ele e um amigo, “moleque e pobre como eu” caíram nas graças de seu José Chamas, dono do Cinema Brasil, único da Cidade, e conseguiam entrar de graça nas matinadas de domingo.” Ninguém consegue imaginar a felicidade minha e do meu amigo quando nos víamos sentados numa das cadeiras do cinema para assistir o filme daquele dia”, relata Pioli.
“Quando cheguei em Curitiba no final dos anos 1970, meu interesse pelo cinema só cresceu. Conheci todas as salas de exibição da cidade, inclusive o local onde eu iria assentar minha carreira profissional. Era um espaço diferente, com cadeiras de madeira, onde a programação diferenciada e os preços quase simbólicos me atraíram ainda mais, e onde fiz muitos amigos Em março de 1986, fui aprovado no concurso realizado pela Prefeitura, para a função de programador artístico cultural da Cinemateca. Francisco Alves dos Santos era o coordenador. Cineasta, escritor, grande conhecedor e crítico de cinema, dos bons, texto apurado. Comecei aprendendo com Francisco e o ajudando na programação e na administração dos cinemas (Groff, Ritz e Luz, na Rua XV de Novembro, Guarani, no Portão e a própria Cinemateca). Lembro que as distribuidoras tentavam a todo custo nos empurrar filmes que nada tinham a ver com nossa linha de programação, já que o nosso objetivo era exibir filmes de qualidade mas que tivessem conteúdos voltados para a arte, o pensamento e a crítica social. Outra briga nossa era com os outros exibidores da Cidade que nos recriminavam por mantermos os preços populares, fazendo concorrência com os valores mais altos dos ingressos, com interesse comercial.”

Já na sede própria Geraldo coordenou os cursos práticos de Cinema. “Eram três por ano, cada um durava quatro meses com lições teóricas e práticas. As aulas gratuitas atraíam de 400 a 500 candidatos para cada período, desse total precisávamos selecionar 30 em cada turma. A teoria estava a cargo de professores convidados e abrangia História e Teoria do Cinema, Linguagem, Montagem, Fotografia/Câmera, Roteiro, Produção e Som. A prática tinha início com o desenvolvimento de um roteiro cujo tema era decidido entre os membros do grupo. Na sequência os alunos eram separados em equipes que se dividiam entre filmagem, edição, imagem e som. Criamos a partir disso, um núcleo de produção digital permanente com alunos de diversos cursos que resultou em três filmes. Quando me aposentei em 2017, o saldo foi de 30 cursos e 30 filmes, muitos deles exibidos na TV.”
A mudança de Rumo
Em 1982 aconteceram no país as primeiras eleições diretas para governadores dos Estados. Nas duas décadas anteriores esses eram designados pelos presidentes da República. No Paraná, foi eleito José Richa (1934-2003), que ao assumir o governo escolheu Maurício Fruet (1939-1998) para prefeito da capital. Três anos depois, se completou a abertura política no Brasil com as eleições diretas para prefeito. Em Curitiba, saiu vitorioso Roberto Requião, que permaneceu no cargo até 1988. Para a presidência da Fundação Cultural de Curitiba, Fruet escolheu o advogado e intelectual Carlos Frederico Marés de Souza Filho, reconduzido ao cargo por Requião como Secretário de Cultura do município. Com ventos democráticos soprando na capital, Marés ampliou as políticas de Cultura nas diversas áreas.
O projeto Cinema para Todos, com exibição nos bairros foi um marco no período, seguido na gestão da jornalista Lúcia Camargo (1944-2020). Infelizmente, essa proposta não está mais em vigor. A gestão de Marés teve outro acontecimento importante, a abertura dos cinemas Luz e Ritz, na Rua XV de Novembro e o Cine Guarani no Centro Cultural do Portão, atualmente Museu Municipal de Arte/ MUMA. Marés foi convidado pela coluna para falar sobre este projeto de expansão cultural.
Quando a Cinemateca se espalhou pelos bairros de Curitiba
Em 1983 a Cinemateca de Curitiba, fundada oito anos antes, se chamava Cinemateca do Museu Guido Viaro. De fato, estava integrada ao Museu que homenageava e mantinha as obras de um dos mais expressivos artistas plásticos de Curitiba. Em 1995 mudou de local e deixou de homenagear o artista, passando a se chamar somente Cinemateca de Curitiba. O Museu foi fechado e depois reaberto em imóvel próprio, sob os auspícios da família do artista, sem participação pública.
Naqueles anos estavam sendo fechados os cinemas de Curitiba e das demais cidades. Em Curitiba nem mesmo o Shopping Center inaugurado na época, o Muller, continha sala de cinema. A política desenvolvida, então, pela Cinemateca e pela Fundação Cultural de Curitiba, sua mantenedora, foi lutar contra o fim de salas de cinema. A começar pela sala pública existente, chamada Cine Groff, localizada na Rua XV, na galeria do mesmo nome. Foi assim que, na contramão do fechamento, o Cine Groff passou a ter sessões diárias e intensas, inclusive à meia-noite. Essa política, que também intensificou as exibições na Cinemateca, fez a Prefeitura exigir como contrapartida às ocupações de solo, no centro da cidade, a abertura de espaço para artes. Foram abertos dois cinemas mais, o Cine Luz e o Cine Ritz, em homenagem a duas grandes salas privadas fechadas no Centro, em troca de uso do solo da CIA e do City Bank. Administrados pela Fundação Cultural e com programação adotada pela Cinemateca, passaram a ser opções reais para bons filmes. Ambas as salas foram devolvidas aos proprietários das empresas e deixaram de ser cinema.
Na época, um quarto cinema foi aberto, no bairro do Portão, no Centro Cultural do Portão, juntamente com o Museu Municipal de Curitiba que havia recebido por doação um imenso e valioso acervo de Poty Lazzarotto. Era o Cine Guarani, também em homenagem não só ao povo que deu nome a Curitiba, mas a outro cinema de rua, fechado pouco antes, no bairro do Bacacheri. O novo espaço foi instalado junto com o Museu e o acervo de Poty, e passou a compor o conjunto de cinemas públicos de Curitiba: Cinemateca, Cines Groff, Ritz, Luz e Guarani. É difícil imaginar uma cidade com tantos cinemas públicos. Mas era a política de Cultura da época. Todos eram programados e impulsionados pela Cinemateca do Museu Guido Viaro.
O Cinema passou a ocupar um lugar de destaque na Política Cultural, que começou a buscar os bairros mais distantes e as atividades junto à população mais carente de espaços culturais. A dificuldade era a falta de espaço físico. Então a Cinemateca passou a implementar o projeto que foi chamado “Cinema para Todos” que tinha o propósito de levar o cinema aos bairros. Uma vez por semana, em geral de noite ou em matinês no final de semana, sempre na mesma hora e local, chegava um carro com o equipamento de projeção e com um filme novo, de tal forma que um mesmo equipamento poderia atender a dez bairros, o que não acontecia na prática porque raros bairros aceitavam ou mantinham o cinema nas segundas-feiras. O equipamento era simples, um projetor 16 mm, uma parede branca ou lençol e um excelente filme. A programação era fechada pela Cinemateca, o que garantia uma escolha criteriosa de filmes de qualidade. Para manter o cinema ambulante bastava que a comunidade do bairro garantisse lotação mínima nas projeções que eram, obviamente, gratuitas. De 1985 a 1988 vários equipamentos foram comprados, então era enorme a quantidade de bairros atendidos e como nem todos conseguiam manter o interesse e a frequência, sempre havia bairros em lista de espera.
Os frequentadores do projeto “Cinema para Todos” ganhavam ingressos para ir aos Cines Groff, Ritz, Luz, Guarani e à sala da Cinemateca. Com isso ia se formando plateia cada vez mais exigente, que começava a não se conformar com a precariedade das projeções nos portáteis 16 mm que eram levados aos bairros. As reclamações eram consideradas um bom resultado. Sempre se fazia enquete sobre os filmes projetados e o que mais teve sucesso, tendo que ser repetido, foi Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Também fez sucesso Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman. Os filmes escolhidos variavam muito, desde A Estrada da Vida de Federico Fellini, até Trapalhões na Serra Pelada, de J.B. Tanko. A relação de filmes projetados em 1985 chegou a 48 títulos, de cineastas como Silvio Back, Hugo Carvana, Vittorio de Sica, Cacá Dieques, Frederico Fullgraff, Hector Babenco, Chaplin, Elia Kazan, Roberto Santos, Nelson Pereira dos Santos etc.
A Cinemateca do Museu Guido Viaro passou a ter uma política de aquisição de acervo nesse período. Adquiria principalmente filmes de paranaenses ou de temas do Paraná. Como exemplo, no ano de 1988, último ano dessa política, foram 13 filmes incorporados, neles quatro filmes de Silvio Back. Os filmes incorporados pela Cinemateca eram projetados nos cinemas de centro e no projeto Cinema para Todos e tinham a finalidade de preservação da cultura cinematográfica paranaense.
Cinemateca atual
Marcos Sabóia, atual coordenador, relata que deve sua formação de cinéfilo à Cinemateca. “Frequentei suas salas, participei de cursos de formação, tornei-me funcionário, preservador do acervo, orientador de cursos e por último, e menos importante, atual coordenador. Os cineastas que amo e os filmes com os quais me identifico foram todos apresentados a mim (e a inúmeros outros) naquele espaço.”
Marcos prossegue: “A sede da Cinemateca, no seu início, ficava em um anexo do Museu Guido Viaro, o que leva os dinossauros do cinema a se referirem a ela, ainda hoje, como Cinemateca do Museu Guido Viaro. Lá eu me lembro de ter assistido a Apocalipse Now, abraçado a uma coluna de madeira que ficava no meio da sala. Naquela ocasião vi também uma mostra completa de Fassbinder e de outros diretores do “Novo Cinema Alemão”. O Cine Groff ficava nos fundos de uma galeria no calçadão da Rua XV de Novembro, uma sala pequena onde fui apresentado ao cinema de Tarkovski e a algumas sessões da meia-noite. Os cines Luz e Ritz também ficavam na rua XV de Novembro. Com as mudanças nas regulações de espaços coletivos as salas foram fechando. Os cines Luz e Ritz funcionam hoje no Cine Passeio, da Fundação Cultural de Curitiba, mas sem a gestão da Cinemateca e sim de uma Organização Social”.

“Uma das características da Cinemateca e que é marcante em sua história, além do conhecido tripé, preservação, pesquisa e difusão, são os cursos práticos. Numa época em que o cinema local se limitava basicamente à produção superoitista, foram trazidos para cá roteiristas, fotógrafos, montadores e diretores a exemplo de Ozualdo Candeias, Eduardo Escorel, Rogério Sganzerla, Walter Carvalho, Silvio Tendler, Thomas Farkas, Vladimir Carvalho, Jean-Claude Bernadet e Mauro Alice. Dessa turma participei de um curso prático ministrado pelo Candeias (que fez várias outras produções) e que resultou no filme Sr. Pauer, de 1987. Estes cursos formaram uma geração de cineastas, conhecidos como Geração Cinemateca. Os anos 1980/1990 geraram um segundo grupo de futuros cineastas conhecido como Turma do Balão Mágico. Quase todos eles seguiram carreira na área do cinema e estão na ativa ainda hoje. Minha parceria com Nivaldo Lopes (Palito), teve início em 1994, quando me tornei servidor na Fundação Cultural de Curitiba e fui designado para a Feira do Poeta onde ele trabalhava. Nivaldo já cineasta praticante é famoso pelo filme a Guerra do Pente.”
Marcos continua suas memórias: “Só para citar a generosidade do Mauro Alice, ele doou, para o Palito e para mim, sua moviola Prevost 16 e 35 mm, que foi instalada nos fundos da minha casa e que permitiu que montássemos dezenas de filmes produzidos em Curitiba, grande parte deles realizados por estes jovens formados pela Cinemateca.”
Em 1993 foi instituída a Lei Municipal de Incentivo à Cultura e a consequente retomada da produção cinematográfica local, pois, através da Lei foi possível conseguir verbas para dinamizar a feitura dos filmes. Marcos cita como exemplo, a possibilidade de alugar as câmeras 35 mm que eram trazidas de São Paulo, já que não havia câmeras desta bitola disponíveis em Curitiba. “Com a retomada da produção de cinema, graças à Lei de incentivo, o Palito me convidou para ajudá-lo em seus filmes. Vieram outros convites, quase sempre da Turma do Balão Mágico. Na nova e definitiva sede, inaugurada em 1998, a Cinemateca já contava com salas climatizadas, e as películas acondicionadas nas embalagens plásticas padrão. Assumi, a princípio, o acervo de vídeo. Depois fui fazer um treinamento na Cinemateca Brasileira, o que se tornou uma experiência marcante. Lá conheci todos os procedimentos do arquivamento fílmico. Meus contatos com aquela instituição prosseguiram no Congresso da FIAF, em 2006, com os encontros do SIBIA, entre outros”.
“Na nova e definitiva sede, inaugurada em 1998, a Casa já contava com salas climatizadas, as películas eram acondicionadas nas embalagens plásticas Na volta do treinamento trouxe comigo um disquete com o sistema de indexação WINISIS, usado na Cinemateca Brasileira. Com adaptações feitas pela equipe de gestão de informações da Fundação, foi iniciada a indexação das informações do acervo, nesta época eu era o único funcionário do setor. Hoje a indexação se dá com o programa Pergamum e conta com cerca de 3.500 entradas em película.”
“Recentemente passamos por reformas estruturais e de aquisição de equipamentos. Nossa sala é a única na cidade com projeção em 35 mm e DCP. Possuímos ainda um scanner Cintel 35/16 mm. No ano passado exibimos filmes para 15 mil pessoas. Passamos hoje pelas dificuldades comuns às instituições públicas (como falta de funcionários), mas a Fundação Cultural de Curitiba ainda é um órgão do município bastante robusto, com mais de 60 equipamentos culturais espalhados pela cidade. Diferentemente de 50 anos atrás, a capital paranaense conta hoje com uma produção notável de obras audiovisuais, cursos universitários de cinema e também com uma Film Comission ativa. A Cinemateca de Curitiba recebe de portas abertas todos os que desejam mostrar seus filmes com qualidade na tela grande, inclusive os grupos vulneráveis, que nunca puderam entrar em um cinema, crianças e jovens que descobrem filmes que nenhum algoritmo aponta”.
A Cinemateca foi dirigida nesses 50 anos por Valêncio Xavier (1975-1983, Francisco Alves dos Santos, primeira fase, (1983 a 1989), Clara Satiko (1990 -1991), Francisco Nogueira (1991-1994), Aparecido Bueno Marques (1995 -1997), Verginia Zanini (1998-1999), Paulo Biscaia Filho (1999-2002), Tânia Zaruch (junho 2002 a janeiro de 2003), Christine Batista (a partir de fevereiro de 2003), Francisco Alves (segunda fase, 2004-2009) Solange Stecz (2009-2012),Valéria Teixeira (2017-2019), Thaisa Teixeira Sade e Marcos Sabóia a partir de 2019.