A celebração de mais um Animatiba (Festival Internacional de Animação de Curitiba) e o recém-inaugurado Estúdio Riachuelo, evocam em muitos de nós o orgulho dos curtas, longas e séries de animação produzidos na cidade ao longo dos anos. No entanto, no auge dos seus 332 anos de história, também nos fazemos a seguinte pergunta: a cidade de Curitiba partilha do mesmo orgulho? E o que ela faz para esse mercado que gera arte, propicia inclusão, movimenta grandes recursos e gera tantos empregos no município?
Na ocasião do lançamento do estúdio Riachuelo, no último 28 de março de 2025, o ex-prefeito Rafael Greca foi certeiro ao lembrar dos pioneiros irmãos Wagner e até profetizou a futura conquista do Oscar da Animação por um curitibinha. Mas ninguém lembrou que o “Oscar” brasileiro, ou seja, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, na categoria Animação, já foi conquistado por uma empresa curitibana em 2013 (Brichos - A Floresta É Nossa, da Tecnokena) e que muitos Kikitos, Animamundis e Cannes Lions preenchem as prateleiras de nossos estúdios locais.
O lapso de esquecimento não se restringe ao ex-prefeito da cidade, muitos profissionais também desconhecem as enormes conquistas que o setor já obteve. Estamos tão focados na criação que nos esquecemos de gritar ao mundo, em alto e bom som, o que vem sendo feito por aqui. Foi nesse esforço de lembrarmos a nós e a todos que um grupo de animadores curitibanos, liderado pelo empresário e artista animador Walkir Fernandes (Dogzilla), produziu o primeiro levantamento a respeito da importância sócio-econômica do setor, o qual se transformou num teaser produzido em parceria com Gustavo Ribeiro (Revolution), intitulado A Força da Animação Curitibana, que foi apresentado à comunidade na abertura do Animatiba 2025. Pedimos licença aqui para um spoiler do que foi contado e que, com certeza, precisam ficar registrados neste artigo.
· R$ 8 milhões entram anualmente em Curitiba através das empresas produtoras locais que prestam serviços para filmes e séries do mundo todo. Inclusive, no teaser aparecem personagens famosos da Disney que foram animados em nossa capital;
· 168 postos de trabalho são gerados anualmente;
· Para além das parcerias com estúdios nacionais e internacionais, nossos estúdios têm se destacado na produção autoral. São conteúdos viabilizados com investimento privado de produtoras, somados a recursos públicos acessados através de Leis de Incentivo à Cultura ou pela conquista de editais nacionais vinculados ao FSA - Fundo Setorial do Audiovisual. Nessas modalidades, desde 2004, R$ 20 milhões já vieram para Curitiba. Esses conteúdos, após finalizados, são distribuídos nacionalmente e internacionalmente, levando nossa arte para todos os continentes.
· 610 mil espectadores consumiram esses conteúdos nas salas de Cinema e mais de 80 milhões via Televisão. Pelo Youtube, atingimos mais de 2.5 bilhões de visualizações.
· Já são mais de 11 mil profissionais formados em escolas técnicas da cidade e até mesmo no ensino superior como é o caso do Cursos de Design de Animação, disponíveis em Curitiba.
· Curitiba conta também com eventos desse setor do país, como o Topia Art Experience, o Festival Animadonas, a Mostra Traços Curitibanos, o Experimenta Anima (realizado pelo núcleo de pesquisa em animação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e o Animatiba. Esses eventos atraem pessoas de todo o país, com retornos para o turismo local, restaurantes, lojas e hoteis da cidade.
Esses são só alguns números da produção de animação para o mercado de entretenimento. Há também um expressivo mercado de animação para publicidade, conteúdos educativos, religiosos, esportivos e videogames. Aliás, a poderosa indústria de games já ultrapassou a do cinema mundial e deve ser vista de fato como uma indústria de "animação + código de programação" pois é disso que se trata, um tipo de interato-cinemato-animografia que se dá em tempo real.
Além do fator econômico em si, é preciso valorizar o caráter simbólico do produto animado. Cada anúncio publicitário, cada filme, cada episódio de série, cada jogo, passa a fazer parte da nossa memória cerebral e atua em nosso comportamento. Ou seja, nossos personagens, cenários e narrativas passam a fazer parte da vida das pessoas. Isso se chama Soft Power, algo que os estadunidenses dominam há muito tempo, que os coreanos adotaram como estratégia há pouco e já avançam muito rápido. Em nossa cidade nasceu a série Carlos que ajuda as crianças a se alimentarem direito, os Brichos que enunciam um Brasil maravilhoso em potência, a Turma do Abluba (um dos maiores cases do Youtube) que diverte milhões de fãs, entre tantos outros conteúdos que levam nossa cultura para outros povos.
As políticas públicas de incentivo à cultura tiveram um papel fundamental na história de muitas dessas empresas. No caso da produtora Miralumo, foi por meio de um edital, e do esforço para produzir o curta Napo, que a produtora percebeu a necessidade de formar uma equipe qualificada, dando origem à Escola Revolution, que formou a mão de obra necessária para viabilizar o projeto. O curta Napo já atingiu mais de 17 milhões de visualizações no Youtube e a escola continua formando centenas e até milhares de alunos. História como essa é a dos Brichos. Por meio de um edital da Petrobras e, através da Lei do Audiovisual, os recursos foram usados para produzir o primeiro longa da franquia que viria a circular pelos cinemas de todo o país. A Tecnokena formou seu primeiro time para enfrentar esse desafio. Após a conclusão do filme, muitos profissionais envolvidos foram fazer seus próprios vôos dando origem a outras 3 empresas de animação que exportam serviços e produzem suas próprias séries e filmes. Ou seja, um único edital, produziu um resultado em cadeia muito maior do que apenas a viabilidade do filme.
Este manifesto faz um convite a nossa cidade: olhar para a produção local de animação, analisar o que ela já fez e seu imenso potencial de transformação social, geração de empregos, geração de renda, aquisição e produção de know how, exportação de nossa cultura e multiplicação de valor através da sinergia com turismo, educação, tecnologia da informação, esporte, etc. Nossos gestores e cidadãos em geral precisam perceber que a animação, a exemplo de outros setores da cultura, além de realizar sonhos é capaz de produzir uma economia ampla e sólida para a cidade, envolvendo arte e tecnologia. Muito já foi realizado em Curitiba, mas com o apoio justo e o planejamento correto, muito mais ainda por ser alcançado.