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Bar Palácio da Paixão

Entre filés e garrafas de Original, tive a honra de presenciar certa madrugada Gerson Bientinez no início dos trabalhos de conquista daquela que viria a ser sua companheira de todas as horas, Tetê Soares

Por Admin
Bar Palácio da Paixão
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Quando penso no Bar Palácio chega a minha mente meia-dúzia de personalidades palacianas: meu pai e minha mãe, Jaques Brand, Ulisses Galetto e Grace Torres, Alexandre França (iniciado no local por mim). Sempre gostei de, depois de um show ou de uma peça de teatro, ir para lá acompanhado da amada, de um amigo ou com a turma toda. Os garçons atendem com grande amizade e carinho. Sinto-me em casa. A comida não demora a chegar e as cervejas vêm à jato.

Não me venham com o nhenhenhém de restaurantes metidos a sofisticados, gosto mesmo é do Palácio, patrimônio sensitivo, com seu ambiente rústico, a churrasqueira de tijolos à vista e sistema de alavancas que faz subir e descer a grelha. É Palácio sim, mas da simplicidade, da qualidade do cardápio caseiro e do sabor dos pratos.

Restaurante sinônimo de comer bem em Curitiba. Meu prato predileto é o Mignon à Griset, acompanhado por ovo frito com gema mole mais a farofinha de ovos. E, claro, o clássico Mineiro de Botas na sobremesa, vindo em chamas para mesa.

Aliás, as portas do Palácio estão abertas e o fogo aceso na churrasqueira desde 1930. Onde funciona hoje o salão comprido de paredes com duas cores, mesas e cadeiras pesadas, luz baixa dando ao lugar um aspecto noir e a enorme placa ao fundo sobre balcão, transportada da sede antiga onde se lê: “só aqui é que se saboreia o verdadeiro churrasco na grelha.”

Desde os primórdios, refúgio para notívagos, jornalistas, escritores, músicos, boêmios, políticos, ir ao Bar Palácio para mim é, ao modo Meia-Noite em Paris (filme de Woody Allen), dar um passeio pela Curitiba de antanho.

Com essa longa introdução, quero dizer que não podia ter havido cenário mais propício e perfeito para o que, entre filés e garrafas de Original, tive a honra de presenciar certa madrugada: Gerson Bientinez no início dos trabalhos de conquista daquela que viria a ser sua companheira de todas as horas, Tetê Soares.

Quem disse que o icônico violonista e compositor, assíduo nas noites curitibanas, tremia feito gelatina? Quando se tratava de conquista, Gersinho era intrépido. Na época ele ainda fumava e os dois saíram para a calçada. Gersinho com o copo de cerveja e o cigarro na mesma mão. E, com a outra, a reger o breu invernal da André de Barros sob o letreiro vermelho de led. Voltaram para a mesa e as chamas altas da gargalhada de Tetê a cada gracejo que o músico lhe fazia.

“É um sapeca”, dizia Tetê, incapaz de palavras mais fortes (que Gersinho merecia, importante destacar).

A madrugada avançava e o sorriso abestado dele. Dela, o brilho nos olhos. Tanto e tão bem se soubera que todo o repertório de sambas-canções, bossas e clássicos da MPB eram ele cantando o mundo para ela. O chão deles se mexia, os corpos esquentavam e as peles pediam misericórdia. Juntos, de dois corpos maduros, violonista e musa, formavam um só corpo de jovem animal feliz e selvagem. Este corpo único, feito da amálgama da paixão, por certo produziria substância que o jovem animal ainda não tinha maturidade para decifrar. O jovem da raça das feras, porém, dominava o ofício de ser carnívoro. Só que os dois já não estavam ali para arriscar tudo na vida, não mesmo. E mais do que carne, eles queriam aliançar suas almas.

Agora, se vocês acham que o Gersinho não deu trabalho para a Tetê, estão muito enganados. O que acontece é que paixão não perdoa, faz de todos lesos e patuscos. Na paixão ninguém salva ninguém. E foi por isso que ambos sentiram em seus corações a necessidade de dar um passo importante. Transferiram-se então da paixão que desnorteia para o amor que dá rumo certo. O amor maduro. Afinal, o sorriso da Tetê eram contínuas e incansáveis ternuras, eram cantigas de ninar melhor harmonizadas que o violão era capaz. E o Gersinho (“ah, aquele porquera”) foi cada vez mais gostando de madrugar ali.

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