
Quando se percebeu em meio à natureza de Segualquia, a 1.700 metros do nível do mar, Henrique da Costa Ressel ainda não sabia direito no que tinha se metido. Preparava-se para passar os próximos quatro dias, com as respectivas noites, imerso numa solidão completa. Sem comer, beber ou falar. Tinha passado o ano anterior com uma série de dúvidas na cabeça. Perto dos 30 anos, começou a ter travamentos na coluna. O diagnóstico médico foi hérnia de disco. Fez reeducação postural global (RPG), pilates, fisioterapia – nada, porém, que afastasse de vez os problemas. Apesar de todo o tratamento, dores agudas e injeções de cortisona o assaltavam de duas a quatro vezes por ano. De repente, se viu refém do próprio corpo.
Mais do que em outros tempos, passou a reparar na maneira como estava vivendo. Nascido em família curitibana de classe alta, Henrique iniciou cedo no mundo dos negócios. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba, hoje Unicuritiba, no começo dos anos 2000. Não era bem o que queria. Escolheu o curso mais pela referência familiar – o pai era desembargador; a mãe, juíza – do que por vocação ou coisa parecida. Era, como ele mesmo afirma, parte do “script social”. Como se o caminho já estivesse planejado para ele desde sempre.
Em seguida, fez diversas pós-graduações. Especializou-se em Direito Tributário, Direito Empresarial e Gestão Empresarial. Além da atividade principal, na área da advocacia, montou um bar-restaurante (Muquifo Bar), abriu uma loja de chocolates, entrou na coordenação de uma pós-graduação e, para fechar, se meteu no ramo da construção civil. Uma carga horária absurda que proporcionava, certamente, muito dinheiro. Mas ainda faltava.
“De repente me vi acelerado. Estava correndo um monte e não sabia o porquê”, conta o obstinado Henrique, hoje com 41 anos e uma barba bem feita rente ao rosto. A pressa no modo de viver deu o troco. Sentiu-se obrigado e buscar outras soluções para as irremediáveis dores na coluna. Quando sentou no tapete de yoga pela primeira vez, percebeu que a raiz da questão era outra. Nada tinha a ver com genética ou com a física do corpo. O problema era psicológico. Ansiedade, estresse, aceleração. Componentes novos que nunca tinha pensado que pudessem ser tão importantes. “Eu estava numa busca auto destrutiva inconsciente, tentando me adequar aos papéis sociais”, diz.
A grande virada de chave foi após uma viagem que fez para Buenos Aires, em 2007, onde comemorou o aniversário de 30 anos. Logo que voltou para Curitiba, após alguns dias de reflexão e distanciamento, foi convidado a participar de um temazcal, cerimônia tradicional de diversos povos indígenas. É um banho de vapor realizado com pedras quentes. Um tipo de sauna, mas utilizado para a purificação do corpo e do espírito – assim como para a cura de algumas doenças. Henrique aceitou de prontidão.
“Aquilo foi amor à primeira vista”, relembra, com um leve sorriso no rosto, a experiência mais marcante que teve na vida. “Pela primeira vez em muito tempo eu pude sentir uma paz, uma tranquilidade”. Quando mergulhou de novo na atmosfera elétrica da cidade, percebeu que uma parte dele não precisava estar de acordo com aquele ritmo. “Fiquei tão instigado que entrei num processo de busca e autoconhecimento”, revela.
Foi pensando assim que tomou a decisão de subir a montanha. Ficou sabendo da possibilidade no segundo temazcal que participou, apenas duas semanas depois da primeira cerimônia. Era o começo de um processo que jamais cessaria.
A fazenda de Segualquia fica na cidade de Urubici, o ponto mais alto do estado de Santa Catarina. Ali, o mesmo grupo que realiza os temazcais coordena outro tipo de prática: a Busca de Visão. O conhecimento tem mais de 10 mil anos. O buscador, como é chamado quem participa do processo, se isola na natureza por pelo menos quatro dias. Com a ajuda do ambiente sagrado, espera conseguir respostas para questões existenciais. É um momento voltado para dentro de si, para o aspecto mais primitivo do ser humano. Um contato com as mais puras necessidades da vida.
Vale dizer que este grupo, conhecido como Fogo Sagrado de Itzachilatlan (FSI), abarca diversas práticas de uma tradição milenar proveniente principalmente das culturas indígenas da América do Norte. Trata-se de uma lógica comum de encarar o mundo a as relações humanas, baseada em sete cerimônias do chamado Caminho Vermelho, o caminho correto da vida: Pipa Sagrada (ou Chanupa), Temazcal, Meia Lua, Dança do Sol, Dança dos Espíritos, consagração das relações e Busca de Visão.
Também existem temazcais, que servem ainda como rituais de iniciação ou abertura para outras cerimônias, com utilização das medicinas sagradas. No caso do Brasil, a ayahuasca. É uma adaptação, já que nos Estados Unidos usa-se o cacto peiote para a mesma finalidade.
Como já é feita há muito tempo, a Busca de Visão dificilmente prejudica alguém de maneira fatal. Há toda uma preparação, sem contar com o auxílio, em caso de necessidade, das equipes que ficam abrigadas no acampamento base. Os próprios buscadores ficam debaixo de uma tenda, a pouca distância. De qualquer forma, os perrengues são certos e inadiáveis. Atravessar 96 horas sem comer ou beber muito provavelmente não é simples, mas os buscadores estão aí para provar que é possível – e até mesmo benéfico.
“Foi um chacoalhão”, conta Henrique. “Saí vazado daquele negócio dizendo que nunca mais voltaria”. A ficha demorou a cair. Ele tinha encarado a montanha como um artifício para descobrir respostas de maneira imediata. Queria tomar aquele momento de isolamento para poder fazer boas escolhas na vida e acabar com as aflições que sentia. Foi uma puxada de tapete.
Mais leve
O entendimento do que tinha realmente acontecido apareceu meses depois. “Percebi que eu estava bem mais leve. Alguma bagagem tinha ficado naquela montanha”, aponta. O que veio foi uma compreensão profunda do sentido da vida. Deduziu que tinha comprado uma versão dele moldada pelas expectativas de uma sociedade equivocada que não harmonizava com a natureza. Notou, então, que era produto de uma história trilhada por outras pessoas. Já não sabia mais quem era o Henrique Ressel, se é que algum dia soube, mas estava disposto a procurar uma resposta mais legítima e confiável.
Subiu a montanha outras três vezes nos anos seguintes. No segundo ano, aumentou a estadia para sete dias. No terceiro, para nove. No quarto e último, para treze. Durante todo o tem po, decidiu que a vida que tinha antes não fazia sentido algum. Estava num processo total de reconstrução de identidade. Em 2011, entrou na Universidade Federal do Paraná para cursar o Mestrado em Antropologia. Queria entender mais sobre a essência humana. Tornou-se Mestre em 2013 com uma dissertação sobre o FSI. Largou o empresariado e foi estudar yoga e culturas indígenas.
Chegar neste nível de consciência é um trabalho demorado e nada aleatório. No caso do Henrique, que, a meu ver, não deve ser muito diferente dos outros, já havia uma pré-disposição para esse tipo de mudança. O fator principal não foi, embora tenha dado um empurrão, a dor insuportável causada pela hérnia de disco – que, aliás, desapareceu. Ele já tinha a cabeça aberta para novas experiências e perspectivas desde muito jovem.
“Eu sempre carreguei uma inquietude”, conta. Quando adolescente já criticava os valores morais que caracterizavam o círculo ao qual pertencia: arrumar um emprego, ter uma família, comprar uma televisão, viajar nas férias. Também não era nada religioso. Dizia-se cristão católico quando precisava preencher formulários ou algo do tipo, mas nunca praticou de fato a religião – até porque os pais, também alheios ao assunto, não pressionaram em momento algum.
Nunca gostou da intenção das instituições religiosas em determinar o modo de vida dos fiéis. Não queria que o dissessem como deveria pensar ou agir. No budismo, mesmo a partir de leituras e com extrema superficialidade, descobriu que havia formas mais livres de pensar o lado não material das coisas.
Henrique era uma espécie de Chris McCandless, protagonista de Na Natureza Selvagem – com a importante diferença de que continua vivo. Tinha a sua crítica da sociedade em construção, mas não saiu por aí desprevenido para viver sozinho os perigos do mundo. Muito pelo contrário. Por inércia e comodidade, seguiu o caminho que já estava previsto. Mais tarde, porém, começou a cultivar um interesse por questões espirituais. Como não era demasiado apegado a nenhum credo, sentia-se autônomo para procurar outras perspectivas e observar outras culturas.
E aqui preciso diferenciar espiritualidade de religião. Escolho a definição do historiador israelense Yuval Harari: religião é um trato, espiritualidade é uma jornada. Na espiritualidade, não há uma cartilha pré-definida de mandamentos, como acontece na religião. Jornadas espirituais levam o indivíduo por caminhos misteriosos, iluminados por experiências próprias, em direção a destinos desconhecidos. As escolhas que o Henrique faria dali em diante o colocariam em um percurso que jamais imaginou que pudesse existir.
O Encontro
A crescente curiosidade sobre outros modos de encarar a realidade levou-o a pesquisar sobre a ayahuasca. Não hesitou. Em 2004, aos 26 anos, apareceu no Santo Daime pela primeira vez. O local foi o que encontrou de mais confiável nas pesquisas que fez pela internet. Não tinha a menor ideia do viés cristão e espírita que permeia toda a doutrina da instituição. Aliás, sabia muito pouco sobre aquilo tudo. “Foi um start”, diz. Tomar o Daime foi como derrubar a primeira pecinha do dominó. As outras cairiam aos poucos.
“Nunca tinha sentido um amor tão genuíno”, relembra. “A ayahuasca trouxe uma experiência muito grande de humildade. Repensei conceitos obtusos que tinham sido injetados em mim pela cultura.” Pela ótima experiência que teve, não ligou para as músicas cristãs e nem para a rígida disciplina ritualística.
No Daime, existem regras de conduta durante os “trabalhos”. Há um momento para cada coisa. Os participantes não podem se levantar ou deitar quando quiserem, por exemplo. “É um ambulatório espiritual, como alguns dizem. Se a pessoa está em drogadição, por exemplo, aquilo é um resgate”, afirma Henrique. Porém, era a única forma de aplicação da ayahuasca que conhecia. Continuou frequentando o espaço pelos dois anos seguintes.
A primeira experiência não transformou o comportamento de imediato, mas abriu portas. Descarrilhou uma estrutura de pensamento que colocou em jogo novas possibilidades. Nos rituais, foi conseguindo respostas para pequenos problemas do cotidiano, como mágoas e inseguranças pessoais. Percebeu, enfim, que podia conversar com ele mesmo – e não estava louco.
Dentre todos os sentimentos, o de alteridade foi um dos mais abalados pelas contínuas sessões com a substância. “A ayahuasca colocou o Homo sapiens em total igualdade com a natureza”, esclarece, hoje, com a segurança que lhe renderam os estudos como antropólogo. As aproximações com o meio ambiente, provocadas pelo efeito enteógeno da bebida, foram se acentuando com o passar do tempo. Sentiu uma conexão com a natureza que era impossível no caos da grande cidade. No Daime, teve certeza de que a vida não se resumia às contas para pagar ou ao conceito hollywoodiano de felicidade absorvido desde a tenra infância.
Mas, mesmo com a nova bagagem, o vórtice inabalável da sociedade moderna puxava-o de volta sempre que um ritual acabava. Os antigos conceitos que tinha, porém, foram sendo minados quanto mais os meses passavam. Aos 28, procurou uma psicóloga freudiana. Queria colocar alguma ordem na confusão que tinha armado na cabeça. Quando apareceram as dores na coluna, tentou por algum tempo o tratamento tradicional – até perceber que a psicologia podia resolver problemas ligados também ao plano físico. A oportunidade para participar do temazcal foi apenas a batida de martelo: quando recebeu o convite, já tinha cultivado o “sim” ao longo de quatro anos.
A meditação e o yoga, métodos que descobriu mais tarde, eram como uma versão menos poderosa da ayahuasca. Com eles, podia acessar a vastidão da consciência de outra forma, e sem ter que consumir o alucinógeno. Levou a prática para o resto da vida. Começou a dar aulas de Kundalini Yoga, uma versão mais rápida do exercício oriental que trabalha bastante com a reflexão por meio da meditação. Enquanto cursava Antropologia, abriu o horizonte antes preso ao Daime para as inúmeras possibilidades de práticas com a ayahuasca que existem na contemporaneidade. Conheceu mais de perto as culturas indígenas e apaixonou-se por elas – em especial pelos povos Yawanawá e Huni Kuin.
Em 2010 e 2011, foi ao Acre para visitar a aldeia Nova Esperança, dos Yawanawás. Conheceu de perto uma realidade que, de longe, não tinha condições de conceber. Na montanha de Segualquia, recebeu uma “bênção” do Fogo Sagrado para coordenar as cerimônias por conta própria: fruto de um longo processo de aprendizagem e formação. Levou quatro anos para conduzir temazcais e mais quatro de Dança do Sol para atingir o “título” de Homem Medicina e obter a qualificação para guiar rituais com ayahuasca.
E foi o que passou a fazer. Quando visitei a casa onde mora, em um dos bairros mais “nobres” de Curitiba, o Jardim Social, vi que o quintal dos fundos havia sido transformado em um verdadeiro local de culto voltado às tradições indígenas. Ali, ele faz até hoje sessões espirituais para a consagração das medicinas. Trazê-las para cá foi uma oportunidade que encontrou para protegê-las.
A principal intenção, no entanto, é poder compartilhar um conhecimento tão rico e acessível para poucos. Participar de cerimônias urbanas é a melhor alternativa para quem quer conhecer a tradição e não tem condições de ir até à floresta amazônica, por exemplo. “Sócrates que já dizia que o segredo para a plenitude é compartilhar. Aquilo que me chegou não para em mim”, explica, enquanto conversamos sentados debaixo de uma tenda medicinal. Tudo ali é delicadamente organizado para oferecer a melhor experiência possível. Um pedacinho da Amazônia dentro da cidade.
As medicinas também são ferramentas para impulsionar o processo interior das outras pessoas. Henrique quis dividir com os demais não só o conhecimento puro, mas a possibilidade de uma transformação tal qual ele teve. Mudando as pessoas, muda-se a sociedade inteira – que, para ele, está envenenada. “Hoje, na modernidade, as pessoas estão completamente desidentificadas com a sua persona. Em função disso, estão se sentindo exaustas, numa pressão constante”, esclarece. No período histórico em que vivemos, ninguém tem mais tempo para voltar às origens. A ayahuasca é, portanto, uma maneira de retornarmos à ancestralidade humana. “Se não houver uma retomada de consciência da relação do homem consigo e com a natureza, estamos num trem desgovernado”, completa, em voz quase eufórica.
Henrique, pelo pouco que pude conhecer, é um cara bastante sério. Depois de tudo o que aprendeu ao longo dos últimos dez anos, se vê no dever de compartilhar todo aquele conhecimento – e não só pela realização dos rituais. Por um tempo, chegou a dar aulas de Antropologia Jurídica para os alunos do segundo semestre de Direito na Universidade Tuiuti do Paraná. Depois começou a organizar cursos particulares de Antropologia Cultural também dentro da própria casa – e continua até hoje. A aparência faz jus ao estereótipo de professor: alto, esguio, com a boina sempre presente.
A Antropologia foi o método que encontrou para tentar transformar as experiências que teve em palavras compreensíveis para quem está completamente fora desse universo. Mas, hoje em dia, encara a Universidade como uma “fábrica de salsichas”, alegando que a metodologia científica é extremamente repetitiva e enfadonha. Copia-se muito. “Se a mentira está no mercado, a verdade tem que estar lá também”, justifica. O conhecimento tinha que chegar a qualquer um, sem necessidade de matrículas no Ensino Superior ou diplomas. Além disso, não abandonou por completo a carreira jurídica, embora tenha feito algumas adaptações. Deixou de tantos processos e realiza agora uma advocacia mais preventiva. Passou a brigar por causas como mobilidade urbana e regulamentação de medicinas. Um dos maiores desejos é conseguir a liberação do peiote, que aqui no Brasil ainda é proibido.
A Antropologia
Daniel Dipp, 29 anos, é uma das pessoas que vez ou outra frequentam a casa do Henrique para participar dos rituais. Os dois são amigos. Conheceram-se num temazcal anos atrás e mantiveram contato. São muito parecidos, e não só pela serenidade ao falar ou pela barba sempre aparada. Daniel, ou apenas Dipp, também é um apaixonado pela tradição indígena — e, assim como o antropólogo, teve os caminhos da espiritualidade abertos desde cedo.
Dipp cresceu na tranquilidade curitibana dos anos 1990. A família, católica de classe média, sempre teve condições de colocá-lo em escolas particulares da região norte da cidade. Estudou em colégios cristãos até a entrada no Ensino Superior. Queria Odontologia, mas ficou de fora da lista por pouco. Chamaram 16; ele era o 17º. As veredas da vida levaram-no a seguir para as Relações Públicas, curso em que se formou, pela Universidade Federal do Paraná, em 2013.
Também desenvolveu grande aptidão para o trabalho social e para o empreendedorismo. O interesse por ajudar os outros vem desde quando era garoto — reparava muito no contexto de brigas de rua e torcidas organizadas que eram o cotidiano de alguns amigos. “Foi uma grande mudança quando conheci os jovens do meu bairro”, conta, na voz clara e suave que lhe é característica. “Era uma vida baseada na violência, no impor à força. Isso me chamava atenção.”
Ele queria descobrir alguma forma de transformar aquela realidade, que era tão próxima, mas na qual não se inseria. Logo descobriu que a única maneira de fazer aquilo era orientando cada um de forma individual. A mudança tinha que partir de dentro, considerando, principalmente, a bagagem pessoal que influencia o comportamento de cada pessoa. Foi com esse pensamento que ingressou na Universidade.
No novo ambiente, logo teve oportunidades de estágio e voluntariado. Participou de projetos de extensão universitária ainda no primeiro ano, como o Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP). Ali colheu os primeiros frutos de uma futura paixão: a educomunicação. Trabalhou ainda em um projeto de incentivo à leitura para crianças, o Nits, e na área de planejamento de uma agência de publicidade.
Depois foi se aventurar com o empreendedorismo, mas sempre conectado com a importância do impacto social. Participou da Choice, movimento que visa disseminar os negócios sociais entre jovens universitários, e, mais tarde, trabalhou na ONG Aliança Empreendedora — onde fazia mobilização de jovens de baixa renda que queriam empreender.
Pouco antes de se formar, em 2012, criou a Quíron ao lado do amigo Fernando Granato, estudante de Engenharia Elétrica. O projeto é baseado em pensamentos que ambos vinham amadurecendo desde os workshops que realizavam pela Choice. Trabalhando diariamente com os universitários, chegaram à conclusão de que a maioria dos problemas, os mais diversos possíveis, poderiam ser solucionados com uma educação transformadora. Por meio da Quíron, aplicaram uma fórmula de educação voltada para o protagonismo. A ideia era trabalhar com os alunos de forma individual, potencializando as principais virtudes de cada um. Deu tão certo que a empresa cresceu ao ponto de, hoje, abrir filiais nos estados do Maranhão e do Rio Grande do Sul.
Dipp é um rapaz muito seguro, ou pelo menos é o que deixa transparecer. É daquelas pessoas cuja presença é o suficiente para contagiar os demais — e não só por conta do sorriso sincero e dos brilhantes olhos azuis. Mas um pouquinho dessa personalidade, impossível determinar exatamente quanto, parece se dever à consagração da ayahuasca. Conheceu a bebida cedo, aos 19 anos, enquanto passava pelo processo da graduação. A primeira experiência foi determinante para tudo que viria a seguir, seja na esfera profissional ou pessoal.
Interessou-se por ayahuasca porque já tinha certa aproximação com assuntos místicos e espirituais. Tinha referências religiosas na família e na escola, mas nunca se declarou católico. Prefere não enquadrar as crenças que têm em doutrinas rígidas e pré-definidas. Chega a brincar: “Não acredito em nada, mas acredito em tudo”. Na faculdade, teve influência de dois amigos próximos. O Bernardo, já envolvido com questões espirituais, e o Ivan, evangélico ligado ao teatro. As trocas de experiência entre os três acabaram atiçando-lhe ainda mais a curiosidade por novas perspectivas de vida.
O amigo Bernardo foi quem o convidou para participar de uma cerimônia ayahuasqueira pela primeira vez. Dipp aceitou por pura curiosidade. Queria saber como era a experiência, mesmo sem ter noção da magnitude das consequências. Tinha lido algumas coisas sobre substâncias medicinais, como A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda, que trata da utilização ameríndia da planta alucinógena Datura inoxia, conhecida como erva-do-diabo. Aquilo bastava.
Queria se preparar melhor para a primeira vez, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi pego de surpresa com o convite para uma sessão que aconteceria no mesmo dia — não recorda ao certo qual, embora fosse meio de semana —, à noite. Mesmo um pouco contrariado, decidiu não desperdiçar a oportunidade. O local era um apartamento na Rua Sete de Abril, região central de Curitiba. Nada tinha de indígena ou de instituição religiosa. Era um grupo místico totalmente flexível — que podemos enquadrar no título meramente acadêmico de neo-ayahuasqueiro.
“Pareciam pessoas que saíram dos seus trabalhos e depois foram para lá”, conta, ao esclarecer que ninguém utilizava uniforme ou qualquer tipo de distinção — como, por exemplo, acontece no Daime. “Era um pessoal que gostava dessa ideia de desconstrução, de trabalhar o ego.” Embora possa parecer, não eram, de forma alguma, amadores. O espaço era chamado de igreja. Fazia-se ali o uso ritualístico da ayahuasca, com respeito às tradições originais. Dipp, como participava pela primeira vez, teve que responder se tinha algum problema de saúde ou tomava remédios que pudessem causar adversidades. Só depois do breve questionário é que lhe foi permitido o acesso à bebida.
O ambiente de culto era basicamente a sala do apartamento. Sentavam-se em roda. Havia cadeiras de plástico e sofás para quem quisesse. Era tudo muito bem preparado, feito para ter uma pegada xamânica e mística. Músicos tocavam mantras e canções indígenas. Ao contrário de instituições como o Daime, cada um ficava livre para fazer o que bem entendesse — só não era permitido, claro, atrapalhar a experiência dos demais. Todos tomaram a medicina juntos, como reza a tradição. Em seguida, concentraram-se cada um no seu processo individual.
Como estava ali a princípio por curiosidade, Dipp teve mais liberdade para ver o que acontecia. Não esperava nada em específico. “Ficava com o olho fechado e esperando alguma coisa aparecer”, diz, puxando pela memória, quase sem dificuldades, cenas de dez anos atrás. De repente, surgiram as imagens. Foi confrontado pelo conjunto interminável de momentos e abstrações. Estava conhecendo, enfim, o universo inteiramente novo da miração.
“A experiência era incrível”, admite. Caiu num estado profundo de elucubrações mentais. Tal vez por influência do ambiente, refletiu sobre questões filosóficas, holísticas. “Aparece a ideia de que somos todos um. Vejo que é uma ideia que acaba vindo, a de que estamos todos conectados como pessoas e o amor é o que importa”, explica. “Uma coisa é pensar, outra é sentir. O chá entra em você e faz você sentir essas ideias.” De fato, saiu dali marcado e transformado. É como se a ayahuasca intensificasse alguns pensamentos já pré-trabalhados pelo indivíduo. Dentro da miração, são percebidos de forma muito mais reforçada.
Quando saiu dali, depois de seis horas, Dipp sentia-se outra pessoa. Ao chegar em casa, cometeu o “erro” de mandar um e-mail para os amigos contando que tinha várias novidades. Escrevia, inclusive, sobre uma visão que teve com eles. Acharam aquilo muito engraçado, como não podia ser diferente. “Eles brincam com isso até hoje”, conta, aos risos. Ele ainda afirma que o efeito da ayahuasca durou alguns meses: “Fiquei puro amor durante uma época. Era amando tudo e a todos, amando os processos da vida e vendo que tudo o que acontece de ruim tem um porquê. Fiquei bem anestesiado com essa vibe”.
Mas nem tudo foi perfeito. Lembra-se de ter passado muito mal durante uma parte do ritual, e tem quase certeza de que foi por conta da medicina do rapé. Como não conhecia e não sabia como proceder, acabou inspirando para a garganta o pó fino que um dos organizadores tinha lhe assoprado no nariz. O incidente provocou vômitos e um mal-estar enorme. Desde então, procura não fazer o uso do rapé quando participa de algum ritual — mesmo que daquela vez não tenha feito a utilização da maneira correta.
Depois da primeira vez, decidiu não tomar ayahuasca por um bom tempo. “Eu vi que era muito forte”, diz. Mas, de fato, voltou a tomar nos anos seguintes. Na segunda vez, participou de uma cerimônia indígena. Pôde notar, com mais clareza, que a subjetividade da experiência tem muito a ver com o contexto. A presença do pajé parece tornar a coisa mais poderosa. Hoje, nem lembra mais de quantos rituais já participou. Acabou tornando-se um hábito.
Dipp encara a ayahuasca como uma espécie de atalho para a iluminação — o estado de êxtase onde podemos acessar a infinitude da consciência. O caminho mais duro seria, por exemplo, por meio da meditação ou do yoga. Pela ayahuasca, não precisamos passar por todo o extenso trabalho de concentração e preparação. É algo mais instantâneo, com reduzidas possibilidades de erro. “Eu gosto de tomar hoje em dia para tirar algumas dúvidas da minha cabeça e buscar uma conexão com algo divino que a cidade nos tira”, declara. O enteógeno funciona como um psicólogo. Abre novos horizontes e perspectivas que não conseguimos perceber ou entender enquanto sóbrios. Às vezes, a resposta é muito mais simples do que imaginávamos. No caso do Dipp, “faça as coisas com amor” é um dos conselhos mais sensatos que o espírito da ayahuasca costuma dar. E funciona.
De uma forma ou de outra, a própria criação da Quíron passa pela experiência dele com a bebida. Foi o projeto que colocou em prática com o altruísmo, que já o caracterizava antes, multiplicado pelos insights proporcionados pela substância. Um dos pilares fundamentais era justamente o de autoconhecimento.
Os desdobramentos continuaram depois. Dipp entrou em uma questão existencial com a empresa por pensar que o modelo educacional desenvolvido ali ainda não era o ideal. Queria repensar todo o método utilizado. Não chegou a acordo nenhum com o amigo Fernando, que pensava em expandir ainda mais o negócio, e então tomou a decisão de sair. “Quis me afastar. Precisava relembrar e viver a escola de novo”, explica.
Foi assim que virou professor. Pelo Processo Seletivo Simplificado (PSS), foi dar aula de Linguagens na pequena Ilha Rasa, que faz parte do município paranaense de Guaraqueçaba. Tinha vontade de ir para o litoral desde que conheceu Barbados, na ilha de Superagui, e se encantou com o ambiente e com a população de 20 famílias. Na época, passou quatro dias na casa de uma delas. Vivendo o tempo todo com eles, percebeu uma série de dificuldades: sem luz elétrica constante, o banheiro ainda daqueles separados do restante da casa. Voltando para lá, podia ajudar da maneira como pode. Depois de sete anos de ausência, achou que era hora de voltar e, como não conseguiu vaga em Barbados, contentou-se com a Ilha Rasa.
Durante 2018, foi professor de uma escola municipal e trabalhou cotidianamente com as crianças da ilha. Não só para ensinar, mas principalmente para aprender. E avisa: “Não quero ser o professor. Gosto de ser um facilitador. As pessoas precisam ver que o processo está com elas, não comigo."
A ayahuasca o ajudou em alguns momentos. Costumava buscá-la quando precisava de orientações, nem que fosse para as mais simplórias perguntas — do tipo “como eu posso dar a melhor aula do mundo?”. Sabia que tinha as soluções dentro de si. Só precisava enxergá-las com mais nitidez.
Um ano depois, resolveu partir para outra atividade. Deixou de dar aulas e iniciou as bases de um novo projeto, também para a ilha: a Universidade Caiçara. Ainda procura auxílio estatal e de empresas para colocar tudo em prática, mas a ideia é mobilizar os trabalhadores com base no conhecimento de cada um. Ele percebeu que há pouca organização: os moradores não se reúnem, não trocam inovações e não compram a matéria- -prima juntos por um preço mais barato. “Quero criar grupos de trabalho de engenharia naval, gastronomia, turismo, eventos... Assim eles trabalham juntos pela ilha toda”, esclarece.
Enquanto busca os investimentos necessários, pensa em outros trabalhos. Pode ir para a área de marketing, que gosta bastante, ou trabalhar com eventos culturais. Se não derem certo, planeja dar aulas em um colégio agrícola. É um exímio navegante de mares incógnitos, mas sempre carrega uma bússola no bolso. Em certo sentido, sabe exatamente para onde vai.
Sem sintonia
É comum ouvirmos casos de alguém que teve uma experiência ruim com a ayahuasca. Como o efeito é subjetivo e depende também do contexto, realmente existem chances, e não são poucas, de determinada pessoa ter uma péssima vivência — e, por consequência, não recomendar para amigos, familiares e conhecidos. Mas há uma explicação. No caso da estudante Michele Costa, 23 anos, o problema foi a total falta de sintonia com o ambiente.
A única experiência que teve com a bebida foi aos 19 anos. É importante dizer que já havia, antes disso, entrado em contato com outros tipos de droga. Começou a fumar cigarro aos 13. Conta que assimilou o hábito de duas pessoas que amava muito: a avó e o namorado da mãe. Os pais se divorciaram cerca de cinco anos antes. Naquela época, principalmente por conta do processo de separação, Michele foi diagnosticada pelos médicos com depressão. Teve apoio psicológico por algum tempo, mas passou a maior parte da vida lidando sozinha com o problema. Voltou ao psicólogo apenas em 2018.
A partir dos 14, começou a ver muito conteúdo sobre drogas na internet. “Era tudo vendido de uma forma bonitinha”, diz. O próprio álcool já fazia parte do cotidiano: a família toda era daquelas que festavam à base de muita cachaça e cerveja. O consumo, portanto, era algo naturalizado desde cedo. Em pouquíssimo tempo, começou a se interessar por outras substâncias. Teve certeza que queria experimentar tudo o que pudesse quando fumou maconha pela primeira vez, aos 15. Com a mesma idade, provou cocaína e LSD.
O LSD (ácido, papel, doce) era um dos preferidos. Tomou inúmeras vezes. Gostava do efeito visual e de expansão da consciência que o alucinógeno causava. Às vezes tomava um pedaço e percorria quilômetros a pé voltando para casa. Conforme andava, pensava em um milhão de episódios (algo próximo da miração, possivelmente) e sentia uma espécie de catarse, de iluminação. “Era tomada por uma sensação de euforia pela vida e de saber que eu conseguia resolver os meus problemas na minha cabeça”, relembra. Certa vez, pensou ter descoberto o sentido da vida. Mas esqueceu.
Por meio dos sintéticos, conheceu o “outro lado da mente”. É, de fato, um dos possíveis caminhos. Geralmente o efeito é mais concentrado e age por mais tempo, o que também implica em menos controle dos processos — talvez a principal diferença para substâncias naturais como a ayahuasca. Uma das semelhanças é que o LSD não causa dependência. Os efeitos colaterais resumem-se a algumas horas. Depois, tudo tende a voltar à perfeita normalidade. Diferente da cocaína.
Aos 17 anos, Michele percebeu que estava viciada no “pó”. Usava diariamente. Lembra-se com precisão do dia em que a ficha caiu. Depois de uma noitada como tantas outras, acordou tremendo e suando. A agonia era sufocante. “Naquele momento, senti um instinto de cheirar”, explica, com a típica franqueza que a acompanha todos os dias. “Sabia que, se cheirasse, aquilo ia passar. Falei para mim mesma que tinha que parar.” E foi o que fez. Com muita dificuldade, largou a cocaína por pura força de vontade. Sem tratamento. Não sentia, em casa, a abertura para falar dessas coisas com a mãe. Depois de um processo dolorido, transformou os negativos hábitos de vida — o que envolve, além de ficar longe da droga, abrir mão de importantes amizades.
Mas foi uma delas que lhe apresentou a ayahuasca. O ami go, que ela caracteriza como “bem doidinho”, era o mesmo com quem costumava tomar LSD. Conhecia-o há anos e nutria por ele grande confiança. O rapaz tomava ayahuasca e comentou sobre o assunto porque pensou que, já que ela gostava tanto dos efeitos práticos do LSD, certamente teria uma ótima experiência com a bebida. Meses depois, quando já estava há um bom tempo limpa de cocaína e também de ácido, perguntou ao amigo se continuava indo aos rituais.
O objetivo era buscar uma conexão com o divino e com ela mesma. Já tinha pesquisado bastante sobre drogas enteógenas, e sabia que a ayahuasca poderia oferecer algo a mais do que simples alucinações. Mas queria, novamente, sentir aquela catarse de antes. Nessa época, com 19 anos, abriu o jogo com a mãe e contou sobre o envolvimento com os diversos psicoativos e principalmente sobre o vício em cocaína. Explicou, então, que queria experimentar ayahuasca por outros motivos. Não para diversão. Aquilo poderia realmente ajudar em inúmeros aspectos.
Numa sexta-feira à noite, foi à cerimônia na companhia do amigo. Ele nunca tinha explicado como funcionava o local. Falava apenas do que sentia ou via quando tomava a bebida. Michele estava com as expectativas lá no alto. “Achava que ia num lugar super hippie, místico”, admite. Ela nunca foi religiosa. Aos 10 anos já se declarava ateia. Com o tempo, porém, foi desenvolvendo alguns conceitos espirituais — muito por influência da tia espírita. Passou a acreditar em Deus não como uma personificação, mas como um conjunto de todos os aspectos da natureza. Matéria, energia. “Há uma dimensão, uma consciência nas coisas”, afirma. Era este tipo de pensamento que gostaria de aprofundar sob o efeito reflexivo da ayahuasca.
Pense na surpresa que teve quando chegou naquele espaço que, segundo ela, mais parecia um terreiro de umbanda. Era o Céu do Paraná, uma igreja daimista localizada em Campo Largo, a 30 quilômetros de Curitiba. Tinha emprestado da tia uma saia azul e uma camisa branca, requisitos para participar do ritual. A entrada era gratuita, pelo menos. Já não gostou quando precisou assinar um termo de compromisso dizendo que não sairia lá de dentro até o término da cerimônia. No espaço circular que marcava o local dos trabalhos, notou um pequeno altar para santos católicos. “Foi ali o meu primeiro estranhamento”, conta. Depois, os participantes foram divididos entre homens e mulheres. Cada grupo para um lado. Não tinha remédio senão continuar.
Chegou ao limite quando tentou cruzar as pernas e foi impedida por uma moça da organização. Argumenta-se que cruzar braços ou pernas atrapalha o fluxo de energia. “Tô de volta nas missas da minha infância!”, pensou, ao perceber que jamais teria uma experiência à altura do que imaginava. Em seguida vieram os cânticos cristãos, chamados pelos daimistas de hinários. Extremamente repetitivos, de acordo com ela. Até que entrou um pouquinho em sintonia com as danças, mas a sensação de alegria acabou quando tomou a primeira dose de ayahuasca. Diz que o cheiro era doce e muito forte. Não fez efeito. Passou cerca de quatro horas completamente sóbria e saturada de tudo aquilo. Nem chegou, por conta do gosto, a tomar uma segunda dose. É verdade que a impressão poderia ter sido outra se tivesse passado ao menos pela parte imprescindível da experiência extática.
Não vomitou em nenhum momento. Até foi ao banheiro fingindo que passava mal, tamanha era a chatice, mas só teve em troca alguém batendo na porta para levá-la de volta ao círculo. Não tinha o mínimo de sossego para fazer o que bem entendesse. “Parece escola de freira, sabe? Era um inferno. Foi horrível”, lamenta. Saiu de lá para não voltar mais. Sequer tinha ideia de que existiam outros lugares, muito diferentes do Santo Daime, que prometiam vivências mais próximas ao que ela buscava. Descobriu anos depois, enquanto conversávamos sobre os acontecimentos daquele dia desafortunado.
O melhor das pessoas
Outro que não se deu muito bem na primeira vez foi o estudante A. R., 22 anos, que prefere esconder a identidade justamente porque acha que os pais não gostariam muito de saber que o filho andou envolvido com este tipo de coisa. Dou razão a ele. É uma calamidade que temas tão ricos possam sucumbir ao preconceito familiar ou ao próprio tabu social. Enquanto esperamos pelo progresso da discussão acerca do tema, continuamos no papel de tentar abrir alguns olhos.
A. R. é um aspirante a psicólogo natural de Jundiaí, interior de São Paulo. Por lá passou toda a infância e adolescência, antes de se mudar para Curitiba a fim de cursar o Ensino Superior. Em Jundiaí, morava na chácara da família em um bairro mais afastado da cidade. Sempre estudou em colégios particulares. O primeiro, que frequentou até a quarta série, era bastante ligado à religião católica. A mãe vivia na igreja. Participava de grupos dominicais e o forçava a participar também. Era do tipo que buscava o filho na escola para levá-lo à missa. “O padre frequentava a minha casa. Era nesse nível”, conta. Mudar de colégio a partir da quinta série foi uma transformação enorme. Conheceu outras pessoas e perspectivas diferentes de vida. A nova instituição não era nada religiosa. Quando teve alguma oportunidade de escolha, decidiu não ir mais à igreja. Devia ter uns 10 anos. Surpreendentemente, a mãe não tentou convencê-lo do contrário. “Não tem como uma criança curtir aquilo”, explica, com a calma que já devia ter naquela época. “Era um negócio que eu era obrigado a fazer.”
Como Michele, por um tempo disse que era ateu. Mas logo criou um conceito de Deus diferente daquele que absorvia da igreja. Define-se, hoje, como uma pessoa bastante espiritual. É uma maneira de encarar o mundo. Considera que existe algo além do que vivemos no nosso plano material cotidiano. Uma totalidade. Pensamentos assim parecem ser característicos em quem acaba se encontrando com a ayahuasca em algum momento da vida. O caminho que vai até ela não é de forma nenhuma aleatório. O que é ruim, porque o universo ayahuasqueiro acaba ficando mais restrito a estes determina dos grupos.
Além disso, o perfil de pessoas predispostas à utilização da substância tem outros aspectos. Um deles é ter utilizado outros psicoativos anteriormente. Com isso, já há uma compreensão do que pode acontecer sob efeito da ayahuasca, ainda que distante. Em geral, pessoas que já fazem uso de outras drogas tendem a ter a cabeça mais aberta para novas experiências envolvendo os estados alterados da consciência. É o caso, por exemplo, de A. R.
Ele fuma maconha e tabaco quase diariamente. Começou cedo, antes mesmo de entrar na faculdade. Também já utilizou LSD algumas vezes, mas sempre em pequenas doses. Não é como se estivesse refém de alguma substância que pudesse prejudicá-lo nas obrigações diárias. Posso dizer que é responsável e conhece seus limites — não é daqueles, por exemplo, que aparecem em casa transformados em fantasmas do dia anterior, sofrendo por terem cruzado a linha do aceitável. Tem um ótimo controle. É mais caseiro, aliás.
Já tinha ouvido falar sobre ayahuasca, mas superficialmente. Não sabia como eram feitos os rituais e interessou-se, basicamente, por curiosidade. A oportunidade surgiu quando passava as férias de julho em Jundiaí. Não lembra se em 2016 ou 2017. O convite foi feito pelo irmão mais velho, que também nunca tinha tomado a bebida. O único relato que tinham era da namorada do irmão, que estava com ele no município de Rio Claro. A cerimônia aconteceria lá. A. R. pegou o carro e partiu rumo ao encontro dos dois. Não havia tempo para preparação, como cortar certos alimentos, mas ele nem se preocupou. O que pôde fazer foi apanhar um cobertor, um tapetinho e um pouco de comida.
Era sábado à noite quando se viu no meio do mato. O ritual ocorreria numa chácara afastada da cidade. Precisaram ir até lá de carro. Com ele, iam mais quatro: o irmão, a namorada do irmão e mais duas pessoas. Mais amigos estavam em outros veículos. Era um pessoal já acostumado a consagrar a medicina. O local tinha uma casa, uma piscina e um pátio coberto, mas aberto dos lados — além de bastante espaço. Homens e mulheres foram separados, como no Daime, embora o grupo responsável pela organização fosse holista. A decoração foi montada com imagens de Jesus, de Buda e de outras conhecidas figuras religiosas — as várias faces, portanto, do mesmo conceito.
Como em qualquer outra cerimônia ayahuasqueira minimamente responsável, teve que fazer um breve cadastro quando chegou para alegar que não tinha nenhum problema de saúde. Em seguida, deram uma “aula” para quem nunca tinha tomado a substância. Explicaram como aconteceria o ritual. Não havia mandamentos ou regras. Cada um tomava e ficava como quisesse — sentado, deitado, andando. Fazia-se o máximo para respeitar os processos individuais.
Havia ainda uma fogueira, acesa no princípio dos traba lhos. Depois, todos tomaram a primeira dose. Tudo conforme professam as tradições originais. A essa altura, percebe-se que o problema não foi a falta de harmonia com o ambiente, ou ainda algum excesso de expectativa. O revés é de outra categoria: começou a chover — e não cessou pelo resto da noite. Houve uma aglomeração no pátio, onde estavam os homens, de modo que faltaram lugares confortáveis. A. R., que planejava ficar tranquilo na área da piscina, contentou-se com um mísero espaço do lado de fora da cobertura, bem debaixo das sobras do telhado.
Como fatalmente percebeu mais tarde, ali ainda era onde participantes aproveitavam para vomitar. Por tanto, ouviu sons desagradáveis pelas quatro horas seguintes. Parece banal, mas qualquer adversidade pode atrapalhar a grandiosidade da experiência extática. A falta de conforto é uma questão importantíssima. A cabeça precisa estar tranquila. A. R. admite que a chuva, mesmo fraca, atrapalhou. Para completar, não tinha sentido o efeito da bebida depois de vários minutos.
A coisa pegou no tranco quando, de olhos fechados, viu imagens dos mantras que saíam da caixa de som. “Vi o som refratando, como se estivesse jogando pedras na água”, relembra. De brinde, ganhou uma sensação terrível de agonia. Apareceram imagens abstratas, mas acompanhadas de um sentimento ruim. Outro motivo que contribuiu para a experiência não ter sido como se esperava. Sabia, porém, que aquilo acabaria. Não se desesperou.
Ficou o tempo todo deitado, aturdido pelas incessantes reflexões. A partir da segunda dose, a coisa começou a melhorar. Passou a ter mirações mais claras, e já não sentia mais aquele mal-estar físico. Porém, o senso de realidade com os olhos abertos era muito grande. “Mas era questão de fechar o olho. Parecia que ia para outra dimensão imediatamente”, conta.
Para ele, a sensação era tão real como num sonho. Como se estivesse dormindo acordado. Logo retornou em alguns momentos da vida. Lembrava-se das pessoas com muito amor e pensava apenas no melhor delas. “Via as pessoas puramente. Não tinha barreira. A visão do negativo estava abaixada”, atesta. “Quando acabou, abraçava cada um como se fosse o amor da minha vida.”
Diz também que mudou ou aprofundou alguns conceitos. O espírito da ayahuasca marca de verdade. Com certeza, saiu dali uma pessoa menos egoísta e mais altruísta. “O que mudou na minha percepção foi como me relacionar com o mundo. Com mais amor, com mais desprendimento do material. O chá dá a perspectiva de que as coisas que vivemos aqui são passageiras.”
Desde então, tenta aplicar na vida cotidiana as ideias que vivenciou naquela noite. Apesar dos incômodos, a experiência não foi detestável. Espera consagrar a medicina mais vezes, inclusive — especialmente em outros lugares. De Rio Claro, ao menos trouxe a segurança de que há muito mais o que descobrir.
*Terceiro capítulo do livro-reportagem ‘Os caminhos do cipó: perspectivas sobre o consumo contemporâneo de ayahuasca’. Acompanhe os próximos aqui no Plural.