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As ruas perdidas

Saudade da selva noturna. Saudade do grito de socorro, do berro de pega-ladrão, do avião voando baixo, do sistema de som na caçamba da saveiro

Por Admin
As ruas perdidas
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1

Da minha janela, num décimo terceiro andar da Amintasde Barros, vejo que as florações das árvores-da-china estão mais bonitas esteano. E a mistura de verde, rosa e amarelo em suas copas nunca me pareceu tãofeliz. Entre elas, há tempos, elegi alguns espécimes de predileção. Um deles estána Conselheiro Araújo, perto da panificadora Pote de Mel. Outro, na Faivre, emfrente à Residência Belotti. E um terceiro, o meu favorito, de longe o maisbelo de todos, também na Faivre, se ergue atrás do muro do Círculo Militar.Esse último, infelizmente, é o único que não consigo avistar da minha janela.Há um prédio entre nós. E como não posso nem devo ir até ele, meu exercícioagora é imaginá-lo ainda lá, imenso, mais florido do que nunca. E desejar queas florações das árvores-da-china deste ano, tão exuberantes, de algum modo nossirvam de bom presságio.

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Vou do quarto ao banheiro, do banheiro à biblioteca,da biblioteca à cozinha e, da cozinha, de volta ao quarto. Carrego comigo umcopo d’água, uma xícara de chá, um livro policial, uma trouxa de roupas sujas,uma sensação de inoperância, o remédio para a pressão, a preocupação com ostrabalhos que já escasseiam. No caminho desvio das crianças, que se lançam pelocorredor, escalam os móveis, rolam nos tapetes, brincam e brigam com a própriasombra. Vou e volto, daqui até ali, vou e volto, um dia depois do outro.

Avalio os primeiros efeitos do outono nas plantas decasa. A avenca pede ajuda. A espada-de-são-jorge e a espada-de-santa-bárbaravão bem. As samambaias se desfolham. As heras resistem com galhardia. Oasplênio foi atacado por centenas de formigas. A dracena, antes tão vermelha,está desbotando. A peperômia cresce em cascata. A jiboia chora todas as manhãs.O rabo-de-burro balança ao vento. A cheflera amarelece. A batata-doce brotadase exibe em fabulosas evoluções. O rosário secou e morreu. É preciso agir. Podo,rego, adubo. Boto as árvores-da-felicidade no box, para tomar uma chuva. Façotudo isso demoradamente. As meninas querem ajudar, me cercam, imploram portarefas, pelo fardo ou pela dádiva da responsabilidade. Dou a elas umborrifador. Dou a elas instruções precisas. Uma missão nobre. Cinco minutosdepois o apartamento é um campo de batalha, e todos estamos molhados.

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Até poucos dias atrás não se via ninguém nas janelasao redor do meu prédio. Só eu olhava para fora, ruminando o mistério já antigo detantas ausências. Cada moldura vazia era todo um universo que se desperdiçava. Agoranão. Aos poucos passo a conhecer a cara e a silhueta de meus vizinhos. Olhampara fora, se espreguiçam, suspiram, tomam sol, batem panelas, gritam. Olham paramim, para o céu, para as ruas que provisoriamente perdemos.

Lembro de uma frase perfeita de João do Rio, uma quenunca deixo de repetir nas minhas oficinas. Ele dizia que os desgraçados não sesentiam de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante de seus olhos uma ruase abrisse para outra. Tendo a concordar. E estando agora na minha janela,alerta e bem instalado, posso garantir a vocês: as esquinas ainda estão láembaixo, continuam a se abrir umas para as outras, esperando apenas que osdesgraçados voltem a quebrá-las.

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Um vizinho, no meio da madrugada, começa a fazerpolichinelos diante de uma grande janela escancarada. Todas as luzes de seuapartamento estão acesas. Parece, ao longe, um palhacinho de brinquedo dançandopor sua saúde. Não é um espetáculo encenado especialmente para mim, mas imaginoque somente eu, agora, o esteja assistindo. E ele decerto imagina para si umespectador ilusório, desconhecido, ideal, postado em alguma das mil janelasescurecidas diante dele. Estamos ligados de um modo incerto, mágico, e essaligação, mesmo frágil, de repente confere àquele instante uma aura de sonho.Entre as nossas janelas, então, se estende uma ponte pênsil, desmoronadiça, masque, ao menos temporariamente, suspende os efeitos de qualquer ansiedade. Daquieu o aplaudo. E respiro.

5

Ali um vizinho passa o aspirador. Ali um outro guardaas roupas recém-passadas. Ali a menina na cama, com a gata entre as pernas nuase os olhos presos ao celular. Ali um velho cumprimenta do sofá o apresentadorde um programa policial vespertino. Ali uma moça surge de biquíni amarelo nasacada. Ali uma senhora e sua cuidadora, ambas mascaradas, espiam o vazio pelafresta da cortina de renda. Ali uma gaiola de passarinho é pendurada para forado prédio. Ali o passarinho canta e se ilude. Daqui eu o ouço e me iludo.

Lá embaixo o carrinheiro continua a puxar seu carrinhopelas ruas perdidas, um rústico riquixá. É o único veículo a se mover pelaAmintas, pela Faivre, pela Padre Antônio. O homem traz consigo a mulher, quevai à frente do marido, batedora experiente, verificando o que há de mais oumenos valioso no lixo dos prédios que vão esquadrinhando. Pouca coisa. O lixo reciclável,é fácil de perceber, também começa a diminuir. Tudo que presta está rareando.Dentro do carro só vão os filhos do casal, pequenos, silenciosos. Mas vão brincando.Precisamos aprender a imitar as crianças.

6

A noite é longa. E difícil. E quieta. Passo parte damadrugada flanando pelo apartamento. Folheio um livro de contos de DinoBuzzati. Depois outro, de ensaios, de Italo Calvino. Leio de pé. Me alongo eando em círculos pela sala. Deito no chão duro. A coluna agradece. Ouço arespiração das crianças no quarto contíguo. Alguém tossindo no prédio. Uma tevêligada num filme dublado. A água descendo do apartamento de cima, aquele ursoirreal que, segundo Cortázar, mora nos canos de cada edifício.

Lá fora, nada, ou quase nada. Saudade da selvanoturna, penso, ainda deitado. Saudade da bagunça que o louco fazia, da suarisada de caveira de trem fantasma, das brigas e do amor dos bêbados, dopandeiro do guardador de carros, do coro dos estudantes no bar da Federal, doviolão desafinado do fã de Victor Jara, do maloqueiro esquizofrênico e suascrises de choro e terror. Saudade do escapamento aberto do motoqueiro babaca,das queixas da mulher que dormia sob a marquise vizinha, de suas dores nascostas, de seu ódio dos homens, de seu coração partido, do som das garrafas quede raiva estilhaçava no asfalto. Saudade do grito de socorro, do berro depega-ladrão, do avião voando baixo e se preparando para o pouso, do sistema desom na caçamba da saveiro.

A única coisa que agora rompe essa rotina inédita desilêncios, além das seriemas que ganem no Passeio Público e das ambulâncias queentram e saem sem parar do HC, é o comboio do corpo de bombeiros. À medida quevai passando, na velocidade de um cortejo fúnebre, um alto-falante reproduz, aquem puder ouvir, a voz monótona de uma mulher que, de forma contida, nosexorta, repetidas vezes: Fiquem em casa, fiquem em casa, fiquem em casa.

7

Saudade do carro do sonho.

8

As aves mantêm em dia os seus afazeres e horários.Ainda voam e cantam como de costume, embora já estranhem a diminuição doalimento disponível pelas ruas. Desapareceram apenas as garças e os socós doPasseio Público. Este ano preferiram abandonar o ninhal bem antes do previsto.Sumiram da cidade e, sim, fazem falta. Acho uma pena. Era sempre um consolo veressas aves de origami roçando a janela do meu quarto de dormir, uma depois daoutra, em sequência infinita, absurda, fenacistoscópica, ao fim de cada dialógico e finito.

9

Para encerrar essas notas, duas notícias objetivas. Aprimeira é velha: o guapuruvu do Guaíra caiu. Foi em dezembro passado, poucoantes do Natal. Na época houve quem dirigisse duras críticas à árvore nostelejornais. Ao morrer, disseram, teve o desplante de atrapalhar o trânsito defim de ano na Amintas de Barros. Bem, se ele caísse hoje, pensei, não teriacausado grandes problemas aos motoristas curitibanos, e sua queda talvez nemvirasse notícia. Quem sabe assim ninguém se zangasse com ele?

A segunda notícia, por outro lado, é nova. E, a meu ver,bem melhor que a primeira. Quem me contou foi uma amiga, a Letícia. Que a ouviude um amigo, o Vinícius. Com quem fiz questão de conversar dia desses, ambosisolados, cada um em sua casa.

Durante muitos anos, a caminho do trabalho, o Viníciuspassou pela calçada onde reinava o guapuruvu do Guaíra. E sempre olhava paraele, pensando: como faço para arranjar uma muda desse gigante? Um dia puxouconversa com o gari cujo trabalho era justamente varrer aquela quadra. Seu nomeera Lorimar. E o Lorimar disse ao Vinícius que as sementes do guapuruvu eram muitodisputadas pelos artesãos da cidade, que com elas faziam ótimos colares epulseiras, mas que ele se comprometeria a guardar algumas para o amigo, casoele realmente se interessasse. Vinícius disse que se interessava, é claro, emeses depois ganhou de Lorimar o punhado de sementes prometido.

Vinícius conta que experimentou diversas técnicas degerminação, mas que nenhuma deu certo. Foram três anos de tentativas, esperas efrustrações. Nada vingou. Nenhum broto deu as caras. As sementes do guapuruvunão abandonavam seu estado de dormência. Até que o Vinícius finalmente desistiudelas. Largou os vasos num canto do jardim e não pensou mais neles. Com o calordo fim do verão, porém, as sementes germinaram. Na surdina.

Nada entendo de botânica, já disse isso muitas vezes. Mas gosto de pensar que talvez haja um sentido para a história do guapuruvu do Guaíra. Pois justamente quando desistimos dele, ele resolveu renascer.

P. S.: O Vinícius me ofereceu uma das mudas do guapuruvu. Agradeci e aceitei. Obrigado. Quando pudermos voltar às ruas, pretendo plantá-la na casa de meus pais, no Capão Raso.

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