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Arte, amor e dedicação: o 8 de março de Buenos Aires a Curitiba

Laura Orts construiu a vida nas artes curitibanas. Da Argentina ao Brasil, sua história é inspiradora e repleta de paixões, personalidade e conexões

Arte, amor e dedicação: o 8 de março de Buenos Aires a Curitiba
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O início

Assim como na história de tantos amantes da arte, as coisas já começaram com ares de grandeza para a body piercer Laura Orts. Ela nasceu numa fervorosa Buenos Aires, na Argentina, em 1987. Foi um ano animado para a capital, cujas ruas foram abarrotadas por 900 mil jovens durante a segunda Jornada Mundial da Juventude. Além disso, eventos esportivos e mais de 30 filmes lançados foram destaque em todo o país.

Crescer lá foi ótimo. Para Laura, uma vida deliciosa. Mesmo assim, aos 14 anos de idade, ela viu sua irmã, cinco anos mais velha, saindo pela porta em direção a tudo. A oportunidade de crescer, de expandir os horizontes e ver a vida com os próprios olhos, foi uma regalia carinhosa concedida pelo pai. “Nós não éramos filhas dele. Éramos filhas do mundo.”

O país como um todo, já machucado por uma política devastadoramente irregular, se deleitava com os bons acontecimentos enquanto tentava manter o equilíbrio em meio a tanta inconsistência. Por isso, mesmo que à época fervorosa, a capital não enganava seu pai. Ele vinha prevendo uma mudança e, quando Laura estava com 19 anos, mesma idade em que sua irmã foi se aventurar, a oportunidade bateu à porta.

“Meu pai já visualizava que eu precisava ter um futuro diferente, uma vida fora da Argentina, pelo jeito como as coisas estavam indo”, Laura explicou. “Então ele me disse ‘filha, temos uma possibilidade. Eu tenho um negócio em Curitiba, no Brasil. Você gostaria de viajar e sair para o mundo?’” Ela congelou. Não soube o que responder. Será que era o que desejava: sair do seu país e conhecer o mundo?

Dois meses se passaram, e Laura ainda não havia dado a palavra definitiva. Na verdade, a pergunta ficou ressoando no fundo de sua mente, enquanto ela refletia sobre os imensuráveis caminhos que a vida poderia tomar. As semanas se arrastaram e, de repente, já era novembro. Seu pai precisava de uma resposta.

“Eu me lembro como se fosse ontem”, disse ela, sorridente. “Fechei os olhos, e disse: sim, eu quero viajar.” Nesse momento, o pai já estava mergulhado em pesquisas e soluções. “Eu tinha que vir para o Brasil com visto de estudante, senão teria que voltar logo em seguida. Então ele sugeriu que eu viesse para estudar algo que eu já gostasse.”

A escolha foi a fotografia. Ela já estudava fotografia em Buenos Aires, antes de se formar no colégio. Desta forma, no início de 2007, suas passagens estavam compradas, a matrícula no curso estava feita, e as malas começaram a se aprontar. Laura deu o crédito ao seu pai. Segundo ela, sua visão do futuro foi certeira: a Argentina passou a desmoronar.

A chegada

Em 8 de março de 2007, aos 19 anos, Laura desembarcou no Aeroporto Internacional de Curitiba. Era o início dos três meses que seu pai havia concedido para que ela se adaptasse à cidade e tivesse certeza de que era o que realmente desejava. Para ela, três meses que pareceriam uma eternidade.

Os primeiros dois dias, com o cansaço da viagem e de todo seu significado, ela passou dormindo, em uma tentativa de se reconectar com a realidade. Ainda precisava entender quem era, onde estava, e como as coisas se desenrolariam. Laura estava morando em um apartamento bem em frente à praça General Osório, no Centro de Curitiba, onde havia um orelhão a cada tantos metros.

Uma semana depois da chegada, com determinação, ela foi até um desses telefones para ligar para Buenos Aires. “Eu falei: ‘pai, estou bem, está tudo bem, estou super tranquila, e estou feliz. Estou em casa.’ E isso definiu tudo.”

Sua adaptação foi rápida, muito mais do que ela mesma esperava. As aulas do curso de fotografia começaram poucos dias depois da ligação e, mesmo que mal falasse português, ela conseguia entender algumas das coisas que eram ditas. Assim passou a conhecer pessoas e fazer algumas amizades, que a adotaram como parte de seus grupos. Estava sempre incluída nos encontros, nas saídas e em todos os programas que planejavam.

De fotógrafa a body piercer. Foto: Tami Taketani/Plural

Além das pessoas do curso, Laura teve a sorte de chegar à capital bem na época em que acontecia o 16º Festival de Curitiba, com diversas peças de teatro em espaços fechados e abertos, nos anfiteatros, praças e ruas de toda a cidade. “Comecei a conhecer pessoas do festival, andar com eles e ir aos shows. Todos os dias eu encontrava algum desconhecido com quem fazia amizade”, contou. “Isso continuou, e assim conheci e me aproximei de pessoas do mundo inteiro.”

O acolhimento foi imediato. Embora tenha sido sua primeira vez desembarcando na capital paranaense, ela já conhecia o Brasil por visitas a Santa Catarina, através de umas boas semanas de férias de verão que passou na praia, com sua mãe e a família do seu padrasto, durante vários anos da infância. Foi assim que teve contato com a cultura, a comida, o idioma e as pessoas do Brasil.

“Quando cheguei a Curitiba, tudo já era familiar”, disse ela. “Cheguei aqui já morando na cidade.”

Os empregos

Em Buenos Aires Laura já havia estudado fotografia, mas nunca tinha trabalhado com ela. Já em Curitiba, um de seus primeiros trabalhos foi como fotógrafa. Uma conhecida, com quem havia se conectado através do Festival de Curitiba, pediu que ela fotografasse o aniversário de seu filho pequeno.

“Eu fui, tranquila e nervosa ao mesmo tempo, com minha câmera, e fiz as fotos do aniversário.” A experiência tocou Laura profundamente. “Que coisa mais linda. Entrei numa festa, com essa família onde ninguém me conhecia, e fiz o trabalho. À meia noite do mesmo dia, já estava entregando as fotos.”

A partir desse dia, Laura desbloqueou um medo e passou a ter mais coragem de ser quem realmente era, fazer o que amava e aproveitar sua felicidade. “Queria estar sempre com a arte, independentemente do que fosse.”

Algum tempo depois, com diversos trabalhos engatados como fotógrafa freelancer, ela foi contratada para fotografar as noites curitibanas, em uma empresa que cobria eventos em diversas baladas da cidade. “Eu adorei, mas também foi um perrengue”, relatou. “Ali eu trabalhava com pessoas bêbadas e em meio às drogas, que jogavam bebida na câmera, batiam no meu braço, falavam no meu ouvido, tentavam me abraçar e me tocar. Eu tinha que ir ao banheiro várias vezes na noite para chorar.”

Depois disso, fez um curso de maquiagem e trabalhou por um tempo como maquiadora, buscando aprimorar suas fotos. Mas foi em 2010 que sua trajetória foi mesmo chacoalhada. Por indicação, Laura foi contratada como vendedora em uma loja carioca de roupas femininas, no shopping Mueller.

“Acho que foi o melhor trabalho que eu fiz na vida”, ela contou, trazendo à tona o dia a dia do trabalho na loja. “Foi ali que aprendi a lidar com as pessoas, com vendas, e a valorizar o produto, entendendo a necessidade do cliente. O que essa pessoa precisa?” Seu maior objetivo era entender tanto o produto quanto o cliente, para que pudesse vender com toda a honestidade e ver as pessoas felizes e realizadas com a experiência.

Ela trabalhou nessa loja por sete anos, em uma experiência enriquecedora, e só saiu com o nascimento de sua primeira filha, em julho de 2016. Não conseguia se enxergar mantendo a dedicação de sempre num shopping, com expediente aos domingos e feriados e horários puxados, e cuidando com toda a atenção que gostaria de sua bebê. Além de tudo, na loja, ela batia todas as metas de venda que precisava cumprir, e não gostaria de continuar o trabalho com menos maestria do que antes.

Laura e o marido, pai da pequena, estavam de acordo quanto ao tempo dedicado à filha, e a decisão foi tomada para o maior conforto e cuidado de todos. “Dois dias antes de parir, falei que ia para casa e nunca mais voltei. Depois disso, meu trabalho foi como mãe.”

A arte corporal

Sua primeira tatuagem foi aos 17 anos. Já os piercings, desde os 14 já eram parte da sua vida. Ela relatou que sempre admirou e quis fazer parte desse mundo, porque a identificação com o universo alternativo invariavelmente esteve presente dentro de si.

“Essa cultura de piercings e tattoos é super forte na Argentina, em Buenos Aires principalmente.” Foi com isso que Laura, na adolescência em sua cidade natal, fez amizade com um grupo de rapazes donos de um estúdio de artes corporais e passou a se interessar ainda mais por elas.

Mesmo assim, o amor à essa arte era visto dos olhos do espectador, dos visitantes de um museu, e não de quem pinta os quadros e esculpe as gárgulas. Foi em 2019, quando a filha estava com 3 anos e meio, que Laura sentiu a necessidade de se reencontrar como mulher, para além do papel da maternidade.

“Precisava fazer algo para mim, trabalhar e ter um sustento”, explicou, enfatizando que não era uma necessidade exclusivamente econômica, mas também pessoal. “Eu buscava algo que me deixasse feliz, que me fizesse voltar para casa cheia de adrenalina e de amor. Amor próprio e pelo próximo.”

Depois de quase duas décadas, Laura se dsente totalmente acolhida em Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural

Seu marido já trabalhava com a arte corporal, nos piercings e tatuagens, desde o fim dos anos 1990. Ele tinha seu próprio estúdio, Addiction Arts, que por muitos anos funcionou dentro do tradicional shopping Omar, e foi nessa convivência que Laura foi apresentada ao cotidiano das modificações corporais. Ela visitava o espaço, conversava com as pessoas, e levava a filha de vez em quando para que todos participassem.

Foi aí que tudo começou a se inclinar para uma nova aventura que nascia. No início de 2019, os piercings passaram a cativá-la. “Como boa virginiana que sou, nessas visitas eu comecei a arrumar o estoque, organizar as joias, aprender sobre tamanhos, nomes e para quê servia cada coisa, deixar tudo lindo e limpo como se eu mesma trabalhasse ali. Fazia isso pelos outros.”

Nesse crescente envolvimento, ela acabou pegando gosto pela coisa. Percebendo que já estava num processo de aprendizado, resolveu mergulhar de cabeça. Seu marido, piercer experiente, sugeriu que desse um curso para Laura e a ensinasse tudo o que sabia sobre a arte das perfurações. Mesmo com dúvidas e receios, ele a incentivou em todos os momentos e, com este apoio, ela aceitou: começou a aprender sobre o body piercing.

Sua mãe, com quem desenvolveu laços especialmente fortes na vida adulta, foi sua maior apoiadora. Perceber a confiança que a mãe depositava nesse sonho que se desenrolava foi encorajador para Laura. “Ela sempre me falou que nasci para trabalhar com beleza e arte, e isso ficou gravado em mim para sempre”, comentou, emocionada. Mesmo com a distância física entre o Brasil e a Argentina, ela sente que a mãe anda ao seu lado a cada passo que dá na vida.

Os ensinamentos do marido e o incentivo da mãe impulsionaram Laura a um novo patamar de paixão pela arte corporal, e poder observar não apenas as aulas, mas a prática da profissão, foi essencial. Isso era tudo, até o momento em que ela passou a caminhar com suas próprias pernas no mundo das perfurações.

A artista sempre se dedicou a todos com quem se conectou nos trabalhos que realizou ao longo da vida, e trouxe à tona a magia com que enxerga o amor em cada uma dessas pessoas, especialmente nos piercings. “Aconteceu desde o primeiro atendimento que eu tive, dedicando todo o meu conhecimento, minha vontade e meu respeito. Além de tudo isso, vinha meu desejo de fazer aquela pessoa feliz com o que ela estava precisando no momento.”

Sua pretensão é continuar neste ramo para sempre, de uma forma ou de outra, até quando e onde puder. O contato com cada ser humano completo que passa por sua sala a energiza, e poder fazer as pessoas felizes através dos adornos é um desejo imutável. Além da relação direta com o cliente, ela valoriza muito cada passo que os olhos não vêem – segundo Laura, manter o espaço perfeito, limpo e organizado, seguindo todas as normas de biossegurança, é o pontapé do máximo respeito para com todos os seus clientes.

Pelo lado profissional, ela busca continuar estudando, se aperfeiçoando e aprimorando seu trabalho a cada dia. Ser reconhecida como uma profissional de excelência da arte corporal no Brasil, país cuja cena alternativa e de modificações é robusta, mantém nela mais um propósito a ser seguido.

A conexão

Os laços que tecia com seus clientes já começavam nas conversas anteriores ao atendimento, mas tudo mudava no momento da perfuração. “Na hora que íamos para a sala de procedimento e eu tocava na pele daquela pessoa, já sentia que tudo era muito profundo.” Para Laura, desde então, as perfurações são como um ritual. “A pessoa me permitia tocá-la, entrar em contato com ela, penetrar sua pele. Isso causava uma sensação muito forte, de adrenalina pura. É o que sinto até hoje. Uma conexão espiritual.”

Laura vê em cada um que atende, seja para informações, dúvidas ou adornos, uma oportunidade de transmitir algo bom. “Às vezes é só um papo, às vezes é só um conselho, mas o que eu quero é que as pessoas se sintam enxergadas, e saibam que eu as enxergo.” É essencial para ela o exercício de reconhecer, em cada pessoa que encontra, um ser humano absoluto, com necessidades, desejos e inseguranças. Se comunicar com os clientes a aproxima deles.

“Não falo apenas o que as pessoas querem ouvir, pelo contrário”, diz. “Às vezes digo algo que alguém não estava pronto para escutar, mas sei que se falar, posso levar algo bom para sua vida.” Quando necessário, ela nega perfurações que podem ser maléficas para o cliente, explica todos os motivos e faz seu trabalho com a responsabilidade que sempre almeja. “Não nego algo por teimosia. Nego porque pode não ser o melhor para aquela pessoa.”

Amor pelo trabalho e ausência de preconceitos. Foto: Tami Taketani/Plural

O afeto que ela deposita em cada cliente vem desde o primeiro contato. Sua natureza a leva a olhar para cada indivíduo como se já nutrisse grande carinho por ele, mesmo que o esteja conhecendo naquele instante. “Dentro de mim não existe preconceito, não existe nada que me faça apontar o dedo para alguém”, expressou.

Laura busca sempre o melhor para todos que a encontram, como pessoa ou como profissional. Nas perfurações, sua realização não se dá apenas no ato de adornar, mas também na possibilidade de orientar, educar, explicar e ser sincera. “Às vezes você pode procurar outro lugar, ou outro profissional, e encontrar o melhor para você. Esse é o meu intuito, sempre fazer o melhor pelo próximo.”

Os dias de hoje

Desde que começou na arte corporal, Laura nunca teve vontade de abandoná-la. O amor à vida, à família, às conexões, à Curitiba e à vida que leva sempre foram grandiosos em comparação a quaisquer desavenças que possam ter surgido. Ela foi abraçada pela capital paranaense, com tanta intensidade que nunca pôde duvidar que esta era sua casa.

Atualmente, ela trabalha no estúdio Addiction Arts com o marido e vários outros parceiros da área da arte corporal. O estúdio fica no final da Alameda Prudente de Moraes, Centro de Curitiba, no espaço que Laura carinhosamente apelidou de “a rua mais bonita da cidade".

A última vez que visitou a Argentina foi em 2020, pouco antes da pandemia. Desde então, seu pai, que mora atualmente no Uruguai, e sua mãe, que vive na Argentina, vêm para o Brasil e passam um tempo precioso com a filha, os netos e toda a família que foi construída aqui.

Sua família foi essencial nessa caminhada. Segundo ela, seu pai teve a capacidade financeira, psicológica e amorosa de dar às filhas a oportunidade de conhecer o mundo, e a mãe sempre apoiou seu trabalho e suas escolhas, e através de seu amor a tornou quem é hoje. A irmã mais velha foi grande referência para ela, e deixa até hoje marcas muito positivas em sua coragem de viver a vida.

De todos esses anos, no fim das contas, o amor é o que sempre prevaleceu. “Nem sei dizer como aqueles primeiros sete dias viraram esses 18 anos”, confessa. Laura está em casa.

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