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A ponte

O dia está lindo. Umas poucas nuvens passeiam unidas pela leveza. Do meu posto à janela, nunca tinha visto a ponte Vasco da Gama com tanta nitidez

Por Admin
A ponte
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– ... não facilite – mantenha-se em casa – sigaas recomendações da Direção Geral da Saúde – nesta páscoa, não facilite –mantenha-se em casa – siga as recomendações da Direção Geral da Saúde – nestapáscoa...

A voz que ecoa entre os prédios, em looping, nasce do abismo. É uma vozfeminina, firme mas não autoritária. Sobe dos miasmas da terra até minha gaiolano céu. Nos intervalos, ouço o vento, saboreio a calma luminosidade do dia. Umpouco constrangido, confesso a mim que o vírus me fez um favor: deteve amáquina que me fazia culpado pelo amor à vagabundagem. Não me alisto entre osadictos do trabalho. Sempre preferi andar sem destino definido, pensando a esmo.Andar agora não posso. Mas posso divagar do jeito que gosto, olhando o rabaneteque murcha, o raro avião que passa, meus pés ao sol como raízes arrancadas –não sinto na nuca o dedo do dever, o hálito azedo das obrigações.

O dia está lindo. Umas poucas nuvens passeiamunidas pela leveza. Do meu posto à janela, nunca tinha visto a ponte Vasco daGama com tanta nitidez. Posso abarcar com os olhos os muitos quilômetros de suaondulação suave sobre o Tejo. Só um carro a atravessa, minúsculo, a caminho deLisboa.

Da mureta do terraço, olho os edifícios iluminadospela brandura, ouço o silêncio das ruas de ninguém. Ao longe, no espaçoarborizado da praça, uma pessoinha sentada num banco, imóvel. Não, não é só aponte, todo o Barreiro está muito nítido. Ontem, alíás, a lua estava tão gorda,tão cheia de si.

É evidente que, sem os fumos da indústria humana,a natureza já se refez um pouco. Acalmou-se, respirou. Ainda medrosa do quehouve, ensaia horizontes inviolados, montanhas, pássaros, cidades precisas comomaquetes. Abre perspectivas que nós, em nossas gaiolas, havíamos esquecido. Nós,que toldamos o céu.

Imagino o que aconteceria se continuássemospresos pela mão invisível desse vírus, um snipersutil que mira verdades mais vis e menores do que ele. Se tais verdades –dinheiro, família, pátria, deus, glória e demais eufemismos de solidão –caíssem como moscas sob o spray do "próximo".Se aqueles a quem fomos indiferentes nos matassem e fossem mortos por nós, numaescala crescente, anos e anos a fio. E ao fim restassem uns poucos pálidossobreviventes, diante de uma natureza imune, refeita, uma cornucópia de seresmultifários e instintivos dizendo "sim" para estes homens esquecidos,que saem de seus esconderijos com a memória flagelada pelo "não".

Vamos supor pouquíssimos homens, meia dúzia decriaturas esqueléticas que não comeram carne humana para evitar contrair ovírus. Viveram de restos, raspas, sombras. Por algum motivo não tombaram. Passoa passo, eles ganhariam as ruas cobertas de mato, experimentariam o assombro deserem arqueólogos de seu próprio mundo. Veriam placas de contramão apagando-sesob a ferrugem; cartazes anunciando crédito fácil para o nada; escolasabismadas em ecos de pios, grunhidos e relinchos. Chegariam a uma praça, comoesta que vejo da minha gaiola no céu.

Ali, entre vacas, canários, cães e porcos comeriamfolhas. Depois, perseguiriam galinhas.

Me pergunto o que essas criaturas, depois derecobrarem a força, o cálculo, a volúpia da palavra, o que essas criaturasfariam...

Ouço os passos dela atrás de mim. Eu amo seuspassos lentos, de garça atenta. Sei que anda inquieta, sei que este isolamentoé um espelho claro demais da nossa insuficiência. Ela põe a mão em meu ombro,olha o céu:

– Ficou tudo tão claro...

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