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10 fatos que você precisa saber antes de deixar seu filho entrar numa rede social

Das opções de entretenimento digital disponíveis, de longe a pior é o acesso a redes sociais. A despeito de controles e limitações que você possa colocar, nenhuma realmente protege seu filho ou filha

10 fatos que você precisa saber antes de deixar seu filho entrar numa rede social
Photo by freestocks / Unsplash
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Como estudiosa de tecnologia, uma das coisas que mais me deixa tensa é a quantidade de pais, professores e escolas que acham normal que crianças e adolescentes tenham perfis em redes sociais. Desde 2006, quando escrevi o Manual do Uso Responsável da Internet em parceria com a operadora de Telecomunicações GVT, o ambiente online se tornou ainda mais tóxico.

Mas o que é pior é que a segurança de crianças e jovens só se fragilizou. Por um lado, diversas empresas começaram a vender ou fornecer de graça sistemas de controle parental. O uso de plataformas digitais nas escolas aumentou. Por outro, celulares e tablets ficaram mais baratos e onipresentes nas mãos de crianças cada vez mais novas.

Não me entendam mal, não sou radicalmente contra telas e eletrônicos. Infelizmente o entretenimento digital é parte necessária da rotina de pais e mães cada vez mais ocupados com o trabalho. A nova geração de pais trabalha muito, está sempre à disposição do trabalho e, por outro lado, conta com menos apoio na criação dos filhos, com menos avós disponíveis para ajudar, alto custo de creches e aulas extras.

Mas das opções de entretenimento digital disponíveis, de longe a pior é o acesso a redes sociais. Se uma criança está assistindo desenhos e filmes em um streaming, você não precisa assistir tudo para ter certeza do que está sendo apresentado a ela. Nas redes sociais, a despeito de controles e limitações que você possa colocar, nenhuma realmente protege seu filho ou filha.

Não acredita em mim? Então vamos ver os fatos:

  1. A adesão de crianças e adolescentes a plataformas de redes sociais é essencial para o plano de negócios dessas empresas.

É uma questão matemática. O que faz das redes sociais empresas valiosas são duas métricas: o número de usuários e a quantidade de horas que esses usuários gastam nelas. Obviamente há um teto tanto no item 1 quanto no item dois.

No Facebook, o primeiro marco de usuários que marcou a transição da empresa para um negócio multibilionário com ações valiosas foi a chegada dele a marca de 1 bilhão de usuários em 2015. Em 2025, o Facebook tem 3 bilhões de usuários ativos. A Meta, empresa proprietária do Facebook, mas também do Instagram e do Whatsapp, soma ainda 2 bilhões de usuários no Insta e 2 bilhões no Whatsapp.

Statistic: Annual revenue generated by Meta Platforms from 2009 to 2024 (in million U.S. dollars) | Statista
Find more statistics at Statista

O aumento no número de usuários é diretamente relacionado com o aumento da receita da empresa. Isso levou o Facebook (hoje Meta) a comprar tanto o Instagram quanto o Whatsapp. Mas também a investir na adesão de usuários fora dos EUA e da Europa (que já tinham uma grande adesão a plataforma), principalmente usuários da Ásia.

Statistic: Average revenue per user (ARPU) of Meta Platforms from 2011 to 2024 (in U.S. dollars) | Statista
Find more statistics at Statista

Essa relação é consequência direta de uma realidade: o negócio das redes sociais não é oferecer um ambiente de comunidade online. O negócio dessas empresas é ser uma plataforma de publicidade (assim como é a televisão, o rádio etc). E o negócio da publicidade é valioso quanto mais olhos estão disponíveis para vê-la.

Depois de chegar a 1 bilhão de usuários, o Facebook precisou procurar outros mercados. E um mercado que àquela altura ainda era pouco explorado era o de crianças e adolescentes.

  1. Parental control não resolve nenhum problema - as ferramentas de controle parental em redes sociais não existem para proteger crianças e adolescentes online. Elas surgiram porque crianças não podem assinar contratos, e os pais estavam temerosos de deixar seus filhos entrarem nessas plataformas.

Nesse contexto, os recursos de controle parental jogam no colo dos pais a responsabilidade por controlar o tipo de conteúdo que os filhos consomem nas redes. Ao mesmo tempo que faz os pais pensarem que só pela definição de filtros o uso dessas redes se torna seguro.

Grosso modo, o controle parental serve para você pensar que tudo bem deixar seu filho usar o Youtube, Instagram etc, mesmo sem efetivamente garantir a qualidade do conteúdo que está sendo entregue. E sem dizer o principal: a razão pela qual eles querem seu filho nessas plataformas é para exibir publicidade para elas.

  1. Não existe controle de publicidade online. Se você, como eu, tem por volta de 40 anos, sabe que na nossa infância/adolescência o conteúdo e a publicidade veiculados na televisão e no rádio dependia muito do horário. A televisão tinha as manhãs com desenhos infantis e propaganda de cereal, meio dia era hora do noticiário, os filmes mais "adultos" passavam no fim da noite, madrugada.

Essas divisões também se aplicavam a publicidade. Além disso, a publicidade direcionada a crianças tinha e tem regras. Esse controle nas redes sociais é inexistente. Além disso, conteúdo e publicidade se misturam tanto que é difícil dizer o que é o que.

  1. O controle parental prejudica o desenvolvimento de estratégias de auto-regulação, o que no longo prazo é fundamental. Ou seja, o ideal é que a criança e o adolescente aprendam a avaliar a qualidade do conteúdo e da informação que estão consumindo.

Ao simplesmente filtrar ou eliminar conteúdo, os pais resolvem problemas pontuais, mas falham em ajudar os filhos a entender o meio que estão consumindo e a desenvolver estratégias para melhor usar essas ferramentas.

https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/2998181.2998352

O uso responsável da tecnologia é sempre ativo.

  1. O Facebook ativamente faz de crianças e adolescentes alvo de estratégias que exploram emoções como ansiedade e tristeza para mantê-los mais tempo dentro de suas plataformas.

Em Careless People, a ex-funcionária do Facebook Sarah Wynn-Williams conta como esse público era vendido para potenciais anunciantes:

"Em abril de 2017 um documento confidencial é vazado revelando que o Facebook está oferecendo para anunciantes a oportunidade de direcionar campanhas para crianças de 13 a 17 anos em todas suas plataformas, incluindo Instagram, durante momentos de vulnerabilidade psicológica quando eles se sentem "sem valor", "inseguros", "estressados", "derrotados", "ansiosos", estúpidos", "inúteis" e um "fracasso". Ou quando estão preocupados com seus corpos e pensando em perder peso. Basicamente quando um adolescente está em um estado emocional frágil".
Careless People
  1. As redes sociais são uma feira gratuita de conteúdo para pedófilos. Não é só uma questão dessas pessoas abordarem crianças nas redes sociais. Eles caçam imagens, vídeos para consumo pessoal, e também abordam pessoas em instituições como escolas, cursos para obter imagens (às vezes pagando por elas). O NYTimes fez uma investigação em 2024 sobre crianças influencers (link abaixo). Mas o problema não se restringe a isso. Com o aumento do uso, por escolas e outras empresas que tem crianças como público, das redes sociais para divulgar seus produtos e serviços, o problema também cresce.
  1. O conteúdo criado pelos usuários é usado para "treinar" plataformas de Inteligência Artificial. Isso inclui fotos e vídeos, além de detalhes biográficos.
Social media platforms are using what you create for artificial intelligence. Here’s how to opt out | CNN Business
OpenAI has claimed that creating ChatGPT would have been impossible without using copyrighted works. LinkedIn is using user resumes to polish up its artificial intelligence model. And Snapchat says if you a certain AI feature, it might put your face in an ad.
  1. Plataformas de Inteligência Artificial são usadas para gerar deepporn a partir de fotos de redes sociais. A especialista no tema, Sophie Maddocks, aponta que mulheres de grupos minoritários e adolescentes correm maior risco de sofrer abuso sexual através da geração de conteúdo sexual por IA.

Essa é uma área complexa porque há uma imensa dificuldade de controle das imagens compartilhadas online. E mesmo quando há decisões judiciais determinando a retirada de conteúdos da internet, a própria natureza da rede impede que esses conteúdos sejam completamente eliminados.

Segundo Maddocks, "deepfakes pornográficos frequentemente são usados para silenciar e envergonhar mulheres ao espalhar desinformação sobre elas". E geração de imagens pornográficas falsas exige pouco ou quase nenhum conhecimento técnico.

A entrevista completa com a pesquisadora está disponível aqui:

What Is Deepfake Porn and Why Is It Thriving in the Age of AI?

No Brasil, a posse e distribuição de imagens sexuais sem o consentimento da pessoa é crime. O Revenge Porn (uso de imagens sexuais para constranger alguém como vingança) foi tipificado como crime em 2018 pela Lei 13.718. E a posse e disseminação de conteúdo íntimo de adolescentes e crianças está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

  1. As redes sociais não são responsabilizadas da mesa forma que outros veículos de comunicação.

Um jornal, uma rede de televisão são legalmente responsáveis pelo conteúdo que veiculam. O Plural, por exemplo, já respondeu a inúmeros processos por causa de seu conteúdo (não sofremos nenhuma condenação até o momento). Isso nos obriga não só a ter assessoria jurídica, mas também a sermos muito criteriosos com o que publicamos. Isso tem um custo alto para todos os jornais.

Por outro lado, as redes sociais não enfrentam as mesmas dificuldades, apesar de suas plataformas estarem cheias de informações falsas, conteúdo inadequado e até criminoso. Só os usuários são responsabilizados.

Depois da eleição do Trump nos EUA, as empresas como a Meta acabaram com as poucas iniciativas que tinham para conter informações falsas e outros tipos de conteúdo danoso em suas plataformas. Ou seja, elas se tornaram mais perigosas.

  1. O uso de redes sociais é diretamente relacionado ao aumento de depressão.
Association between Social Media Use and Depression among U.S. Young Adults - PMC
Social media (SM) use is increasing among U.S. young adults, and its association with mental well-being remains unclear. This study assessed the association between SM use and depression in a nationally-representative sample of young adults. We…
Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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