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Minha grande chance

O que fazer quando a tirinha de papel dentro do biscoito da sorte vem em branco? Luís Henrique Pellanda tenta resolver o enigma

Por Admin
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Minhas filhas e eu partimos um biscoito da sortechinês e encontramos em branco a tirinha de papel dentro dele. Diante daquelalacuna, primeiro rimos, meio desconcertados. Depois minha filha mais velha,dona de uma disposição mental bastante prática, me aconselhou: Aproveita, pai,escreve aí o que quiser. É a sua grande chance.

A minha grande chance, refleti. Pode ser. Mas preferiesperar, deixar para depois, pensar melhor. Disse a elas que escreveria algomais tarde, talvez à noite. Até lá meu futuro estaria bem guardado. Soquei opapelzinho no bolso da calça e anunciei: Já passa do meio-dia, é hora de correr.Arrumei as meninas (cabelo, mochila, lanche, uniforme) e fomos os três para aescola. As férias tinham acabado.

Eu estava livre, ou quase. A primeira parte da minhatarde sem crianças, dediquei a uma série de compromissos odiáveis. Banco.Cartório. Banco de novo. Correio. Depois, menos assoberbado, consagrei o restodo dia às compras da casa. Fui ao mercadinho, à farmácia, à loja de ferragens,à padaria. E finalmente à quitanda.

Gosto muito de quitandas, por isso sempre as deixopor último. E gosto ainda mais daquelas onde o cheiro das frutas se torna quaseopressivo, como se o chão do estabelecimento estivesse lavado em licor. Gostode lugares cuja atmosfera não se pode disfarçar com sachês e purificadores dear. Lojas de chá, por exemplo.

Aliás, me permitam uma digressão. Introduzo aqui umahistória avulsa, embora nela eu não identifique nenhum propósito predefinido. Diadesses fui a uma loja de chá comprar anis-estrelado, camomila e espinheira-santa.O ambiente era perfumadíssimo e, ao entrar, não resisti à tentação de proferiruma ou duas platitudes. Disse à moça no balcão que o cheiro ali dentro eraótimo, e que devia ser muito agradável trabalhar naquelas condições. Ao que ela,amargamente, sem esboçar o mínimo sorriso, respondeu: Todo mundo diz isso, masjá me acostumei. Eu não sinto mais nada.

Lamentei tanto por sua anosmia quanto por minhatolice, e encerramos a conversa. Fiz minhas compras em silêncio e só voltei alembrar daquela moça dias depois, ao visitar uma casa de queijos que, aocontrário da loja de chá, fedia intensamente. Entrei e, por educação, não dissenada. Apenas sustive um pouco o fôlego, simulando alguma naturalidade. Nãoqueria ser rude. A vendedora, no entanto, me atendeu com entusiasmo e alegria.Disse que já estava habituada ao fedor. Não sentia mais o cheiro dos queijosque vendia e que, conforme me garantiu, amava mais que a vida.

Mas, perdão, volto à quitanda. Era disso que eu queriafalar, do destino que damos às frutas. Lá escolhi, entre tantas outras coisascheirosas, uma boa quantidade de laranjas-pera, mais ou menos bonitas, numapromoção de fim de expediente. Fui embora e, no caminho de casa, preciseicruzar a Santos Andrade. Num pedaço de gramado, vizinho aos pontos de ônibus, cincohomens descansavam lado a lado, bêbados, numa mesma sombra de árvore. Quatrodeles dormiam e ressonavam. O quinto estava só deitado entre os outros, atentoao movimento da praça, à espera de uma oportunidade qualquer.

E foi isso o que ele, apesar da bebedeira, viu emmim, ou em minhas sacolas. Detectou no interior delas a forma e a cor dasfrutas que eu carregava. Não sei dizer se era capaz de farejá-las a distância. Seié que se pôs sentado e, acenando para mim, gritou: Ei, guri, me joga umalaranja dessas! O grito acordou seus companheiros, que também se acharam nodireito de me pedir, cada um, uma laranja. É justo, pensei. Mas era demais.

Parei a dez metros deles. Apanhei na sacola umalaranja e a lancei ao grupo. Os homens a disputaram no ar, estapeando-semutuamente e sem querer. A fruta, por sua vez, aproveitou a confusão paraescapar. Rolou da grama até as pedras portuguesas da praça. O quinteto seergueu em bloco, correndo atrás dela, e sem que se pudesse prever ou entendercomo, sem que ninguém dissesse palavra alguma, aquela disputa entre bêbados reorganizou-seespontaneamente, até se tornar uma partida de futebol. Aqueles cinco homens crescidosde repente se viram transformados em meninos. E em vez de chupar a laranja,preferiram brincar com ela.

Assim, aquela fruta encontrou o seu destino de bola.Nasceu num dia de calor moderado, num laranjal ao norte daqui. Foi colhida comcuidado, e com cuidado foi posta num caixote. Viajou de caminhão a Curitiba, e depoisembarcou em caminhonetes e kombis, até acabar num balaio do Centro onde eu, poracaso, a escolhi e arrematei com o dinheiro que ganho vendendo crônicas. Tambémpor acaso eu a dei a um bando de homens que dormiam numa praça. E esses homens,mesmo famintos, a pouparam e promoveram a brinquedo épico, e a fizeram voarsobre os canteiros de heras, e a rolaram por debaixo das pernas de seus colegas,e a meteram mil vezes, com presumida categoria, por entre balizas feitas dechinelos. Enquanto isso, dentro da laranja, ignorantes do que acontecia foradela, um punhado de sementes ainda aguardava a sua grande chance. A chance degerminar.

Cheguei em casa, larguei as compras e apanhei no bolso da calça o troco da quitanda. Entre as moedas, reencontrei a tirinha do biscoito chinês. Como ainda não sabia o que escrever nela, decidi que a manteria daquele jeito. Virgem. Um cheque em branco passado ao destino. Guardei-a na carteira vazia e saí de novo, buscar as meninas.

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